O prospecto do IPO da Anthropic, a abertura de capital da empresa, apresenta uma companhia que pretende participar de uma transformação econômica comparável à industrialização e à eletricidade. Mas o documento também expõe o preço, os riscos e uma questão incomum de governança envolvidos nessa aposta.
Três reportagens exclusivas da Reuters publicadas nesta segunda-feira (28) a partir do documento mostram diferentes dimensões do plano da criadora do Claude.
De um lado, estão gastos que podem alcançar centenas de bilhões de dólares. De outro, advertências da própria empresa de que sistemas avançados de inteligência artificial podem provocar danos catastróficos.
No meio dos dois está uma solução societária pouco convencional: os fundadores querem preservar poder suficiente para tomar decisões que considerem necessárias à segurança da tecnologia mesmo quando elas forem contrárias aos interesses financeiros dos acionistas.
Uma empresa de US$ 2 trilhões que ainda perde bilhões
A primeira dimensão do prospecto é financeira. Segundo os dados obtidos pela Reuters, a receita da Anthropic cresceu 12 vezes em 2025 e chegou a quase US$ 4,6 bilhões. O crescimento, porém, veio acompanhado de gastos ainda maiores.
A companhia teve prejuízo operacional superior a US$ 8 bilhões no ano. O prejuízo líquido chegou a aproximadamente US$ 42 bilhões, embora cerca de US$ 34 bilhões tenham origem em um ajuste contábil relacionado à valorização de instrumentos de financiamento que poderão ser convertidos em ações.
Só com computação e infraestrutura foram gastos US$ 7,33 bilhões em 2025, três vezes o valor do ano anterior.
O número mais expressivo diz respeito ao futuro. A Anthropic prevê aproximadamente US$ 518 bilhões em compromissos relacionados a serviços de nuvem, computação e infraestrutura nos próximos anos.
O IPO poderia avaliar a empresa em mais de US$ 2 trilhões. Em maio, sua própria estimativa de valor era de US$ 965 bilhões.
A diferença mostra a velocidade com que as expectativas em torno das principais empresas de inteligência artificial estão mudando.
A abertura de capital também terá consequências que vão além da própria Anthropic. Investidores poderão, pela primeira vez, ter acesso direto a uma das principais empresas dedicadas aos chamados modelos de fronteira. A negociação ajudará a criar uma referência pública de quanto o mercado considera que essas empresas realmente valem.
Prospecto alerta para a própria tecnologia
A segunda parte do documento é bem incomum. Empresas que entram na bolsa são obrigadas a explicar aos investidores os riscos de seus negócios. No caso da Anthropic, porém, a lista inclui a possibilidade de que a própria tecnologia provoque danos extremos.
O prospecto afirma que sistemas avançados de IA podem representar riscos “catastróficos ou existenciais para a humanidade”.
A companhia também descreve resultados encontrados em testes nos quais modelos apresentaram comportamentos como resistência a desligamento, ocultação ou manipulação de informações e atitudes semelhantes a chantagem.
O peso dado ao assunto no documento é significativo. A Reuters calcula que aproximadamente 80 páginas das 261 do prospecto são dedicadas a fatores de risco. A descrição do negócio ocupa cerca de 48.
Há ainda um problema técnico importante. A Anthropic reconhece que modelos suficientemente avançados podem identificar quando estão sendo avaliados e modificar o comportamento durante os testes. Isso torna mais difícil saber se os sistemas se comportarão da mesma maneira depois de colocados em operação.
Também é possível que novas capacidades apareçam durante o treinamento e só sejam percebidas depois da implantação dos modelos.
É uma limitação importante para qualquer empresa que dependa de testes de segurança antes de lançar sistemas mais capazes.
Segurança também compete por recursos
O problema ganha uma dimensão econômica dentro do texto. A Anthropic afirma que o trabalho de segurança exige grande quantidade de recursos e precisa disputar capacidade computacional com o treinamento de modelos, contratação de pesquisadores e desenvolvimento comercial.
Em uma semana analisada em julho, aproximadamente 6% da capacidade computacional destinada à pesquisa em IA foi utilizada para trabalhos de segurança.
A empresa também reconhece que o retorno econômico desses investimentos é incerto. Ao mesmo tempo, permanecer competitivo exige exatamente o contrário de uma desaceleração: novos modelos precisam chegar continuamente ao mercado.
O documento afirma que uma cadência “contínua e sobreposta” de lançamentos é inerente à permanência na fronteira da tecnologia. Esta é uma das tensões mais importantes do setor.
As mesmas empresas que alertam para a necessidade de avaliar com cautela sistemas cada vez mais poderosos competem em um mercado no qual ficar alguns meses atrás dos concorrentes pode significar perder clientes, pesquisadores e bilhões de dólares em valor de mercado.
A solução da Anthropic: limitar o poder do mercado
A terceira parte do prospecto mostra como a Anthropic pretende lidar com essa contradição depois do IPO.
A empresa continuará organizada como uma Public Benefit Corporation, formato jurídico do Estado de Delaware que permite considerar outros interesses além do retorno financeiro aos acionistas.
Mas irá além. O plano prevê a criação de uma organização chamada Founder LLC, formada inicialmente pelos sete cofundadores da companhia, entre eles o CEO Dario Amodei e a presidente Daniela Amodei.
Esse grupo controlará uma ação especial Classe F que concentrará 50,1% do poder de voto sobre determinadas decisões corporativas, incluindo a escolha de parte do conselho de administração.
Para quem comprar ações ordinárias da Anthropic, a consequência é clara: ter participação econômica na empresa não significará possuir influência proporcional sobre sua direção.
O próprio prospecto reconhece a possibilidade de conflito. A Anthropic informa aos investidores que sua estrutura poderá produzir decisões contrárias aos interesses financeiros de curto, médio ou longo prazo e que elas poderão reduzir o valor das ações.
Empresa diz ter preterido o lucro para investir em segurança
A companhia procura demonstrar no documento que essa disposição já influenciou decisões anteriores.
A Anthropic afirma que restringiu ou adiou capacidades consideradas sensíveis por razões de segurança. Um dos exemplos envolve o Mythos Preview, modelo particularmente poderoso para aplicações de cibersegurança, cujo acesso foi limitado.
O prospecto também afirma que a empresa decidiu não desenvolver determinadas ofertas potencialmente lucrativas, entre elas modelos próprios de geração de imagens e vídeos, para concentrar recursos computacionais em pesquisa e segurança.
A estrutura de governança terá ainda outro componente. Quatro integrantes do conselho serão escolhidos pelo Long-Term Benefit Trust, entidade criada para proteger os objetivos de longo prazo da companhia. Entre seus atuais integrantes estão o ex-presidente do Federal Reserve Ben Bernanke e o especialista em segurança nacional Richard Fontaine.
O poder dos fundadores também não deverá durar indefinidamente. O prospecto estabelece mecanismos para retirar integrantes da Founder LLC e prevê o início de uma transição quando restarem apenas dois cofundadores — ou seus sucessores — no grupo.
O verdadeiro teste começa depois do IPO
O prospecto da Anthropic reúne em um único documento algumas das maiores questões que cercam atualmente a inteligência artificial. A principal diz respeito a quem deve decidir até onde uma empresa pode avançar quando segurança e retorno financeiro entram em conflito.
A resposta da Anthropic é clara: ao abrir capital, a empresa pretende receber dinheiro do mercado sem entregar ao mercado controle proporcional sobre suas decisões.
A estrutura pode permitir que seus dirigentes resistam a pressões de curto prazo para lançar produtos ou capacidades consideradas inseguras. Também concentra enorme poder em um pequeno grupo de fundadores cuja avaliação dos riscos passará a ter consequências para milhões de acionistas e usuários.
Projetado para meados de novembro, o IPO será o grande teste do quanto Wall Street está disposto a pagar pela inteligência artificial.
