Historiadora fala em Estado Artificial em novo livro sobre evolução da IA

O Estado Artificial: o que Jill Lepore vê por trás da IA

Jill Lepore, historiadora, no Festival Nacional do Livro de 2025, em Washington

Em The Rise and Fall of the Artificial State (ainda não lançado no Brasil), a historiadora norte-americana Jill Lepore descreve o que um governo precisa saber sobre as pessoas para conseguir governá-las.

Buscando recontar a história dos Estados modernos, ela diz que primeiro foi preciso contar as pessoas (censo). Depois, classificá-las. Mais tarde, transformar suas características em estatísticas. Com os computadores, tornou-se possível cruzar essas informações em escala crescente. E então teria surgido uma ambição maior: prever o que as pessoas fariam.

O novo livro defende que é dessa longa história — e não simplesmente do aparecimento da IA generativa — que surge o que ela chama de Estado Artificial.

Publicado agosto de 2026, The Rise and Fall of the Artificial State é lançado pouco depois da autora ganhar o Pulitzer de História por We the People: A History of the U.S. Constitution. O novo livro também se tornou best-seller do The New York Times e recebeu ampla atenção da crítica.

O livro reúne temas que Jill Lepore investiga há um bocado de tempo: democracia, tecnologia, dados, poder e a transformação dos cidadãos em objetos de previsão.

Uma história anterior à inteligência artificial

Lepore é historiadora de Harvard e colaboradora da New Yorker. Em These Truths, de 2018, reconstruiu a história política dos Estados Unidos. Este tem versão em Português, Essas Verdades, e é uma ótima maneira de entender a formação dos Estados Unidos de um ponto de vista crítico. Em We the People, publicado em 2025, voltou-se à Constituição americana.

Mas o antecedente mais direto do novo livro é If Then: How the Simulmatics Corporation Invented the Future, de 2020.

Ali, Lepore recuperou a história da Simulmatics Corporation, empresa fundada em 1959 que utilizava computadores, dados demográficos e ciências comportamentais para tentar prever decisões humanas. Décadas antes de Facebook, Google ou Cambridge Analytica, a empresa já pretendia segmentar eleitores e consumidores e antecipar suas reações.

A expressão “Estado Artificial” já havia aparecido em um ensaio de Lepore publicado pela New Yorker em 2024. O livro torna a narrativa histórica mais abrangente.

Do censo ao algoritmo

Sua história da política algorítmica começa quando Estados aprendem a transformar populações em informação.

Governantes precisavam saber quantas pessoas controlavam para formar exércitos e cobrar impostos. Mais tarde, censos e estatísticas tornaram-se também instrumentos essenciais do Estado moderno e da democracia representativa: é preciso contar pessoas para distribuir representação e contar votos para determinar resultados.

No século XIX, máquinas começaram a acelerar esse trabalho. A tabuladora de Herman Hollerith, utilizada no censo americano de 1890, converteu características humanas em cartões perfurados. A empresa criada por Hollerith acabaria fazendo parte da futura IBM.

Os computadores multiplicaram essa capacidade. E então ocorreu, para Lepore, uma mudança decisiva: deixamos de apenas registrar o comportamento passado e começamos a tentar prever o comportamento futuro.

O governo do futuro

O Estado Artificial de Lepore não é um futuro em que robôs ocupam governos. Eleições, congressos, tribunais e partidos podem continuar existindo. O que muda é a infraestrutura pela qual cidadãos recebem informações, discutem política, são classificados e se relacionam com essas instituições.

Uma parcela crescente dessa infraestrutura pertence a empresas privadas e é mediada por sistemas automatizados. A autora chama de automatocracia a progressiva substituição da deliberação pela previsão.

Numa democracia, em princípio, alguém apresenta um argumento para convencer outra pessoa. Num sistema de previsão comportamental, o desafio é saber qual mensagem, apresentada a qual pessoa e em qual momento, tem maior probabilidade de produzir determinada reação.

Se a persuasão pressupõe um cidadão capaz de avaliar argumentos, a predição transforma esse cidadão em objeto de modelagem.

O livro vai além da IA. Trata da concentração da infraestrutura de informação, classificação e previsão em organizações privadas que não respondem aos mesmos mecanismos de consentimento e responsabilidade exigidos das instituições públicas.

A antiga ambição de prever o futuro humano

Um dos trechos do livro é aberto por uma passagem de Memórias do Subsolo, de Dostoiévski. Em 1864, o escritor ironizava a ideia de que seria possível descobrir as leis que governam o comportamento humano e, a partir delas, calcular nossas ações como numa tabela de logaritmos.

O Homem do Subsolo rejeita justamente essa possibilidade: mesmo que uma fórmula demonstrasse qual seria a escolha mais racional, o ser humano poderia fazer o contrário apenas para provar que continua livre.

O Estado “não é senão um Homem Artificial”, escreveu Thomas Hobbes em Leviatã, em 1651. Com isso, Hobbes queria dizer um autômato, uma máquina intrincada com a forma de um homem, cujas partes “movem-se por molas e rodas, como num relógio” — algo semelhante a um brinquedo de corda, no qual cada órgão do corpo é substituído por um mecanismo, substituição que, segundo Hobbes, poderia ser feita facilmente: “Pois o que é o Coração senão uma Mola; e os Nervos, senão tantas Cordas; e as Articulações, senão tantas Rodas?”.

Trecho do novo livro de Jill Lepore

O jornal britânicoThe Guardian critica parte dos argumentos, principalmente a abrangência exagerada do que seria um Estado Artificial. Da maneira como a autora descreve, haveria uma convergência organizada entre IAs, redes sociais, algoritmos, automação, infraestrutura digital e diferentes formas de computação, embora essas tecnologias tenham aplicações e consequências muito diferentes.

Lepore deixa claro que não é contra computadores ou inteligência artificial e reconhece seus enormes benefícios para ciência, medicina, educação e outros campos. O problema é que sua grande metáfora às vezes ameaça incorporar quase tudo.

Mas um dos méritos do livro (como em seus anteriores) é a maneira como a autora consegue conectar temas. Neste caso, da estatística à computação e pesquisas de opinião, chegando à internet e à inteligência artificial.

E como historiadora, e não futurista, seu talento é demonstrado no mínimo ao fazer a narrativa histórica que explica melhor como chegamos até aqui. E ao inseri-la em uma argumentação elaborada, como neste outro trecho:

O Estado Artificial é uma infraestrutura inacabada de comunicação digital por meio da qual governos — e, sobretudo, corporações privadas — organizam e automatizam o comportamento político e o discurso público, utilizando de tudo: mala direta e chamadas automáticas, algoritmos preditivos, campanhas em redes sociais, agentes de IA e bots — programas que imitam seres humanos e frequentemente conseguem se passar por eles.

Dentro do Estado Artificial, praticamente todos os elementos da vida pública e democrática — sociedade civil, governo representativo, cidadania informada, igualdade de direitos, liberdade de pensamento, liberdade de expressão e confiança nas eleições — tornam-se vulneráveis à subversão pela redução da política à manipulação digital promovida por algoritmos que exploram a atenção; pela amarração do governo a uma arquitetura digital de propriedade corporativa; e pela redução da cidadania a formas de engajamento online minuciosamente testadas em termos de mensagens.

O Estado-nação liberal exige o consentimento dos governados: o voto em voz alta, vacilante; a mão erguida, suada; a assinatura, trêmula; o coração, pulsando.

O Estado Artificial é governo sem consentimento — talvez até governo sem seres humanos.

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