A corrida pela inteligência artificial está dando novo valor a uma infraestrutura construída décadas antes dela: as usinas nucleares. Google e Constellation Energy anunciaram nesta terça-feira (6 de outubro) um acordo que permitirá ampliar a produção de 11 reatores nos Estados Unidos, com investimentos superiores a US$ 4,3 bilhões.
A estratégia é modernizar instalações em operação para obter mais eletricidade. As ampliações devem acrescentar 890 megawatts (MW) de capacidade à rede, uma potência comparável à de um grande reator. A primeira entrega está prevista para 2028. Segundo o The New York Times, a última deve ocorrer por volta de 2032.
O negócio mostra como a expansão da IA passou a depender de decisões sobre geração, transmissão e financiamento de energia. Para colocar novos data centers em funcionamento, as empresas precisam garantir eletricidade em escala e com fornecimento confiável.
O que o Google contratou
O acordo anunciado pela Constellation tem duas partes. A primeira é um contrato de compra de energia por 20 anos, que viabiliza os 890 MW adicionais nas usinas nucleares de Illinois, Pensilvânia e Nova Jersey.
A segunda prevê o fornecimento de outros 2.700 MW por 15 anos. Conforme a Reuters, essa parcela não está vinculada a uma fonte específica de geração e dará previsibilidade de receita às instalações existentes da empresa.
Somadas, as duas parcelas chegam a 3.590 MW, ou 3,59 gigawatts (GW). Apenas cerca de um quarto desse total corresponde à nova capacidade nuclear. O restante é contratação de fornecimento, que não equivale, por si só, à construção ou ampliação de usinas.
MW e GW medem potência: a capacidade de produzir ou consumir eletricidade em determinado momento. A quantidade efetivamente gerada ao longo do tempo é medida em unidades como megawatt-hora. Essa distinção ajuda a separar o tamanho anunciado de um projeto da energia que ele realmente entregará.
Como uma usina antiga pode produzir mais
O procedimento é conhecido como power uprate, ou aumento de potência. Pode envolver turbinas mais eficientes, novos geradores, bombas, controles e alterações que permitam elevar a potência térmica do reator com segurança.
Em uma usina nuclear, o calor produzido no reator é usado para gerar vapor e movimentar turbinas conectadas a geradores. Modernizar esse conjunto pode melhorar o aproveitamento do calor. Em outros projetos, equipamentos são adaptados para trabalhar com uma produção maior de calor e vapor.
A técnica existe há décadas. A Comissão Reguladora Nuclear dos Estados Unidos (NRC) exige análises para demonstrar que os componentes suportam as novas condições e que a instalação continua segura. Quando há alteração da potência licenciada do reator, é necessária autorização para modificar a licença de operação. www.nrc.gov
Segundo o The New York Times, ampliações desse tipo frequentemente podem ser concluídas em até cinco anos e custar menos que construir uma usina do zero. Elas aproveitam instalações, equipes e conexões elétricas existentes.
Há limites. Obras podem exigir interrupções da geração, e operar em condições mais exigentes pode aumentar o desgaste de equipamentos. O ganho de potência precisa resultar em mais energia entregue ao longo do ano, sem ser anulado por paradas adicionais.
Por que as empresas de tecnologia pagam por isso
Contratos longos ajudam a resolver um problema de financiamento. A geradora assume uma obra cara, mas ganha maior previsibilidade sobre quem comprará a energia. O cliente garante fornecimento para sustentar sua expansão.
Ao NYT, o presidente da Constellation, Joe Dominguez, afirmou que a disposição do Google de pagar mais pela eletricidade foi essencial para viabilizar os investimentos. O preço do contrato não foi divulgado.
A Constellation é a maior operadora nuclear dos Estados Unidos. Com a aquisição da Calpine, concluída neste ano, também passou a reunir uma grande frota de usinas a gás e geração geotérmica. Seu portfólio soma 55 GW, distribuídos entre diferentes fontes. www.constellationenergy.com
Na apresentação de resultados do segundo trimestre de 2026, a empresa já apontava potencial de aproximadamente 1.100 MW em aumentos de potência, incluindo projetos anunciados e oportunidades dependentes de clientes. O documento ajuda a entender a estratégia, mas antecede o novo acordo e não deve ser tratado como seu detalhamento.
A pressão aparece primeiro na rede local
Em seu relatório atualizado de 2026, a Agência Internacional de Energia projeta que o consumo mundial dos data centers passará de 485 terawatts-hora em 2025 para cerca de 950 em 2030. Isso representaria aproximadamente 3% da demanda global de eletricidade. www.iea.org
O impacto, porém, depende de onde esses centros são instalados. Grandes consumidores concentrados em uma mesma região podem exigir novas usinas, subestações e linhas de transmissão, mesmo que sua participação no consumo mundial pareça pequena.
O acordo envolve a PJM, operadora de uma rede que atende partes de 13 estados americanos e o Distrito de Columbia. Segundo a Reuters, o crescimento da demanda, impulsionado pelos data centers, contribuiu para uma alta de mais de 11 vezes nos preços de capacidade desde 2024.
Esses preços remuneram a disponibilidade de geração para atender ao sistema. Não significam que a conta residencial tenha aumentado na mesma proporção, mas indicam pressão sobre os custos de garantir o abastecimento.
Mais geração pode ajudar, mas não garante conta menor
Google e Constellation apresentam o acordo como uma resposta à proposta da PJM de exigir que grandes consumidores tragam oferta de energia para acompanhar seu crescimento. O benefício potencial é acrescentar geração, em vez de apenas disputar a eletricidade já disponível. www.constellationenergy.com
O resultado para os demais consumidores dependerá dos prazos das obras, da expansão da demanda e da divisão dos custos da rede. Também importa saber se a nova energia conseguirá chegar às regiões onde será necessária.
A parceria prevê reduzir consumos não essenciais em momentos de pressão sobre o sistema, prática chamada resposta da demanda. Adiar uma atividade computacional pode ajudar a aliviar um pico de consumo, desde que a operação permita essa flexibilidade.
Há ainda uma aliança tecnológica de cinco anos: a Constellation adotará Google Cloud e Gemini Enterprise em atividades como planejamento de projetos, monitoramento de equipamentos e segurança da infraestrutura. São objetivos anunciados pelas empresas; os resultados precisarão ser demonstrados. www.constellationenergy.com
Um movimento maior que o Google
Outras empresas seguem o mesmo caminho. Em 5 de outubro, o Departamento de Energia dos Estados Unidos anunciou um compromisso condicional de empréstimo de até US$ 4,2 bilhões para modernizações na frota nuclear da Vistra. Os projetos preveem acrescentar 433 MW. O financiamento ainda depende do cumprimento de condições técnicas, jurídicas, ambientais e financeiras. www.energy.gov
A geração nuclear oferece eletricidade contínua e baixas emissões de carbono, características atraentes para data centers. Isso não elimina a necessidade de manutenção, gestão de resíduos e fiscalização. Tampouco torna dispensáveis as demais fontes: a Agência Internacional de Energia prevê contribuição importante de renováveis, armazenamento e gás para atender ao crescimento do setor. www.iea.org
O acordo com o Google indica que a infraestrutura existente pode ganhar uma nova função na expansão digital. Seu efeito será medido pela energia adicional que chegar à rede, pela confiabilidade do fornecimento e pelos custos que ficarão com os consumidores.
