A disputa pela IA já envolve energia, segurança e reputação

Clément Delangue, CEO da Hugging Face, aparece nos telões durante reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre IA

A wide view as Clément Delangue (on screens), Chief Executive Officer of Huggingface, briefs the Security Council meeting on Artificial intelligence and international security, under the agenda item maintenance of international peace and security.

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma tecnologia. Ela passou a influenciar a disputa entre países, o planejamento energético, a segurança digital, a comunicação e a pesquisa científica.

Os sinais recentes apontam para uma mudança mais ampla: governos e empresas tentam ampliar o acesso à IA e, ao mesmo tempo, controlar seus riscos e os recursos necessários para sustentá-la.

A disputa pela IA é uma disputa por poder

Na abertura da Assembleia Geral da ONU de 2026, António Guterres associou poder não só a território, indústria e dinheiro, mas também a dados, capacidade computacional e algoritmos. Poucos países e empresas controlam boa parte dos chips, dos centros de dados e dos modelos mais avançados.

Estados Unidos e China começaram a discutir canais para comunicar incidentes graves envolvendo inteligência artificial, como ataques cibernéticos e riscos a infraestruturas críticas. A conversa ocorre enquanto os dois países competem por chips e capacidade computacional.

A China também tenta reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros. Novos processadores anunciados por empresas chinesas mostram esse esforço, embora não signifiquem, por si só, que o país tenha alcançado a capacidade dos chips mais avançados da Nvidia. As restrições dos Estados Unidos podem acelerar a criação de cadeias tecnológicas separadas.

A disputa por autonomia se estende ao espaço. Países europeus buscam ampliar sua capacidade própria de lançamento, satélites e serviços para reduzir a dependência dos Estados Unidos. A mesma preocupação aparece em áreas como energia, telecomunicações e inteligência artificial.

A ONU tenta ampliar a participação internacional na discussão sobre governança da IA. Mas há uma desigualdade de partida: muitos países participam do debate sem controlar os chips, os centros de dados ou os modelos mais poderosos.

Energia pode limitar a expansão da IA

Centros de dados consomem grandes volumes de eletricidade, e ampliar redes de transmissão pode levar mais tempo do que instalar servidores. Nos Estados Unidos, já há debates sobre quem deve pagar pela expansão da rede. Na Europa, novas regras buscam dar mais transparência ao consumo de energia e água desses centros.

O Brasil tem uma matriz com grande participação de fontes renováveis, mas isso não garante energia disponível onde os centros de dados pretendem se instalar. Geração e transmissão são problemas diferentes. Linhas, subestações e transformadores também precisam acompanhar a expansão.

Por isso, a infraestrutura da IA depende de decisões de planejamento energético e territorial. A eletricidade pode se tornar um dos principais limites para novos projetos.

A IA muda a comunicação e a segurança digital

Os mecanismos de busca e os chatbots estão respondendo a perguntas sem necessariamente levar o usuário até a fonte original. Segundo o Reuters Institute, o tráfego orgânico enviado pelo Google a mais de 2.500 sites caiu cerca de um terço entre novembro de 2024 e novembro de 2025.

A mudança afeta o jornalismo e a comunicação corporativa. Além de publicar informações, organizações precisam garantir que sistemas de IA encontrem dados corretos e identifiquem suas fontes. Respostas produzidas por esses sistemas podem descrever uma empresa ou um profissional de forma imprecisa.

A segurança digital também está mudando. Um relatório da Anthropic descreve o uso de agentes de IA para automatizar etapas de operações cibernéticas, como reconhecimento de alvos e análise de vulnerabilidades. A tecnologia não criou os ataques, mas pode reduzir o custo e o tempo necessários para executá-los.

Agentes capazes de realizar tarefas também ampliam os riscos de erro. Um chatbot pode fornecer uma resposta incorreta; um agente pode enviar uma mensagem, alterar um sistema ou executar código. Quanto maior a autonomia, maior a necessidade de supervisão.

Ciência: novas ferramentas e perguntas

A IA começa a apoiar pesquisadores em etapas que vão além da análise de dados, como formular hipóteses e sugerir experimentos. Esses sistemas ainda dependem de validação e julgamento humano, mas podem acelerar a exploração de milhares de possibilidades.

Na biologia, uma técnica experimental de edição epigenética busca silenciar o DNA do vírus da hepatite B sem cortá-lo. A pesquisa ainda está distante de um tratamento disponível, mas mostra outra forma de interferir no funcionamento dos genes.

Outros estudos exploram baterias que podem alimentar dispositivos médicos dentro do organismo e depois se dissolver. Os primeiros testes foram feitos em animais. Se a tecnologia avançar, poderá permitir sensores que não precisem ser retirados por outro procedimento.

Na área de energia, pesquisadores procuram depósitos subterrâneos de hidrogênio natural. A possibilidade de explorá-los ainda depende de respostas geológicas e econômicas, mas já atrai empresas e cientistas.

Pesquisas sobre a circulação do Atlântico, conhecida como AMOC, indicam que o ritmo do aquecimento pode importar tanto quanto a temperatura atingida. Nos modelos estudados, mudanças rápidas dificultaram mecanismos naturais de adaptação da circulação oceânica.

Também avançam instrumentos para observar materiais quânticos em temperaturas próximas do zero absoluto. O resfriamento reduz vibrações que podem esconder fenômenos importantes para estudos de novos materiais e de computação quântica.

A regulação brasileira avança por partes

O projeto de marco legal da inteligência artificial, o PL 2.338, foi aprovado pelo Senado e segue em análise na Câmara. Enquanto a tramitação continua, outras propostas tratam de temas como responsabilidade por sistemas autônomos, uso de IA pelo poder público e discriminação algorítmica.

Esse movimento sugere que as regras podem surgir tanto de uma lei geral quanto de normas voltadas a setores e riscos específicos. O desafio é acompanhar uma tecnologia que avança enquanto o processo legislativo ainda está em curso.

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