Na noite desta segunda-feira (28 de setembro), um episódio de instabilidade no Oeste gaúcho está sendo acompanhado e transmitido ao vivo por caçadores de tempestades norte-americanos.
Mikey Plemmons, conhecido nas redes como NaderMike, transmite ao vivo da região de São Borja enquanto se aproxima de uma supercélula que classificou como potencialmente formadora de tornados. Além dele, o meteorologista e caçador de tempestades Will Bratton também chama a atenção para a mesma formação, descrevendo-a como uma grande supercélula noturna com potencial para produzir tornado.
Bratton vinha anunciando nos últimos dias uma cobertura conjunta do tempo severo no Sul do Brasil com Plemmons, com apoio de meteorologistas e observadores locais. A proposta, segundo ele, é acompanhar as tempestades em tempo real e ampliar a visibilidade internacional dos episódios severos na América do Sul.
A presença de caçadores experientes no local não confirma a ocorrência de tornado. A confirmação exige evidências posteriores, como dados de radar, registros visuais consistentes ou levantamento dos danos em solo.
Sul do Brasil chama a atenção em razão do El Niño
O El Niño de 2026 continua ganhando força no Oceano Pacífico e pode terminar o ano entre os episódios mais intensos desde o início dos registros modernos. Para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, a consequência mais relevante neste momento é outra: diferentes sistemas de previsão convergem para uma primavera mais chuvosa que o normal, com maior possibilidade de episódios de chuva intensa e tempestades.
A NOAA, agência norte-americana responsável pelo monitoramento do fenômeno, informou em 10 de setembro que há mais de 90% de chance de o atual El Niño atingir intensidade classificada como muito forte durante o fim de 2026 e o início de 2027.
A agência estima ainda em 75% a probabilidade de que a média do índice usado atualmente pela NOAA entre outubro e dezembro alcance um nível superior ao observado em todos os episódios desde 1950.
Isso ainda é uma projeção.
O El Niño já é excepcional, mas dizer que ele é definitivamente “o mais forte da história” exige cuidado com a métrica utilizada.
Uma leitura semanal chegou a 3 °C
O International Research Institute for Climate and Society, da Universidade Columbia, informou em 21 de setembro que a anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 chegou a +3,0 °C na semana centrada em 16 de setembro.
A média mensal de agosto havia ficado em +2,52 °C e a média entre junho e agosto, em +2,03 °C. Todos os 22 modelos analisados pelo instituto indicam fortalecimento adicional do fenômeno nos próximos meses.
Esses números ajudam a demonstrar a dimensão do aquecimento do Pacífico, mas precisam ser interpretados corretamente.
Uma medição semanal de +3 °C não equivale diretamente ao índice trimestral usado para comparar episódios históricos. A NOAA passou também a utilizar o Relative Oceanic Niño Index, o RONI, que ajusta a temperatura do Pacífico Equatorial levando em conta o aquecimento médio dos oceanos tropicais.
É com base nesse índice que a agência calcula os 75% de possibilidade de que outubro, novembro e dezembro configurem um episódio sem precedente na série iniciada em 1950.
Portanto, a formulação mais correta hoje não é afirmar que o recorde já foi estabelecido, mas que o atual El Niño pode se tornar o mais intenso da série moderna segundo a métrica oficial da NOAA.
No Sul, a previsão é mais clara que o recorde
Se a posição exata do El Niño no ranking histórico ainda depende dos próximos meses, há menos dúvida em relação à tendência das chuvas no Sul.
O prognóstico climático para outubro, novembro e dezembro elaborado conjuntamente pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Funceme indica chuva acima da média em grande parte do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Em algumas áreas dos dois estados, os acumulados do trimestre podem superar a média climatológica em até 200 milímetros.
A previsão não significa 200 milímetros de chuva adicionais em todas as cidades nem permite identificar antecipadamente onde ocorrerão os maiores extremos.
Trata-se de uma anomalia prevista para o trimestre inteiro.
Também não significa chuva constante.
Um período pode terminar muito acima da média mesmo depois de semanas secas, caso ocorram dois ou três episódios de precipitação excepcionalmente intensa.
É justamente esse tipo de concentração da chuva que representa uma das maiores preocupações.
Outubro já começa sob atenção
Para outubro, o Inmet prevê predomínio de chuva acima da média em áreas da Região Sul.
No Rio Grande do Sul, o Conselho Permanente de Agrometeorologia Aplicada do Estado também indica condições favoráveis ao excesso de chuva durante o período entre outubro e dezembro e destaca a forte influência do El Niño sobre a Região Sul.
Em Santa Catarina, o cenário é semelhante.
A Epagri/Ciram prevê chuva acima da média e volumes mais expressivos principalmente em outubro e novembro.
Segundo o órgão, frentes frias e sistemas de instabilidade devem atuar com maior frequência ou intensidade, aumentando a possibilidade de chuva forte, acumulados elevados em pouco tempo, descargas elétricas, granizo e vendavais.
A climatologia já torna outubro naturalmente chuvoso em Santa Catarina, especialmente no Oeste.
O El Niño costuma atingir seu pico entre a primavera e o início do inverno no Hemisfério Norte, aproximadamente entre outubro e fevereiro.
No atual episódio, os modelos analisados pelo IRI indicam manutenção de intensidade muito forte até o fim do ano e início de 2027.
Isso torna novembro um mês particularmente importante.
No Rio Grande do Sul, a influência do El Niño sobre a precipitação costuma aparecer com clareza na primavera.
Em Santa Catarina, a Epagri também coloca outubro e novembro entre os meses de maior atenção.
Algumas projeções privadas são mais severas.
A MetSul Meteorologia trabalha, por exemplo, com a possibilidade de volumes extraordinários em partes do Rio Grande do Sul no fim da primavera, incluindo acumulados mensais que poderiam chegar a centenas de milímetros em determinadas localidades.
Essas estimativas devem ser interpretadas como cenários de modelo, não como volumes que já possam ser considerados previstos para uma cidade específica.
Os prognósticos oficiais consultados sustentam a conclusão de chuva acima da média, mas não permitem afirmar hoje que uma determinada cidade terá 500 ou 700 milímetros em novembro.
Dezembro mantém sinal úmido, mas aumenta a incerteza
A previsão oficial para o trimestre inteiro mantém anomalias positivas de precipitação no Rio Grande do Sul e Santa Catarina durante outubro, novembro e dezembro.
O avanço para dezembro, porém, aumenta naturalmente a incerteza.
Previsões sazonais têm habilidade para identificar tendências gerais de temperatura e precipitação, mas não para determinar a ocorrência de um temporal em uma determinada semana com meses de antecedência.
Além disso, outros sistemas atmosféricos passam a interferir no resultado.
O próprio El Niño modifica as probabilidades, mas não controla sozinho o clima do Sul.
Frentes frias, sistemas de baixa pressão, jatos de baixos níveis, padrões de circulação no Atlântico e oscilações atmosféricas de outras regiões do planeta podem reforçar ou neutralizar temporariamente sua influência.
