A frase mais perturbadora da reportagem publicada neste fim de semana pelo The New York Times não saiu da boca de um crítico do setor. Veio de Jayden Butts, ex-analista de dados da DraftKings, ao descrever um modelo de aprendizado de máquina criado para prever quem apostaria e perderia mais depois de receber uma promoção. Pela lógica financeira estrita, disse ele ao jornal, “o melhor investimento seria um apostador problemático”. A tradução é minha, assim como as demais referências ao texto original.
Dois modelos, um destino diferente
A investigação de Alex Klavens, Walt Bogdanich e Jenny Vrentas se apoia em documentos internos e em entrevistas com mais de 40 ex-funcionários. Ela mostra uma empresa que atribuiu a cada cliente uma nota batizada internamente de elasticidade, termo tomado da economia. Quanto maior a nota, maior a perda esperada para cada incentivo oferecido. Um ex-analista resumiu o mecanismo ao jornal: quem perde mais recebe mais, para continuar jogando.
Nem tudo é vazamento. Um executivo afirmou a investidores que a ciência de dados melhorou em 13% as margens sobre apostas esportivas movidas a promoção em 2025, e que a companhia usa inteligência artificial para personalizar centenas de milhões de dólares em incentivos. No ano passado, foram cerca de US$ 3 bilhões em promoções sobre US$ 8,7 bilhões de receita bruta.
O ponto decisivo da reportagem, porém, é comparativo. Os mesmos dados de aposta permitiriam calcular risco de dano, e funcionários tentaram fazê-lo. Um cientista de dados desenvolveu um modelo para antecipar quem estava perto de uma crise. O projeto foi engavetado. A diretora de jogo responsável afirma que a decisão foi coletiva e que a tecnologia preditiva não se mostrou baseada em evidência. Mas duas das maiores concorrentes, FanDuel e Fanatics, já contrataram ferramentas de pontuação de risco, e um diretor da PrizePicks diz ao jornal que existe obrigação moral de usá-las.
A assimetria fica clara na contabilidade interna. A área de jogo responsável tem cerca de 50 pessoas numa empresa de 5 mil. Um ex-funcionário a descreve em conflito com o resto da companhia, porque seu trabalho consiste em desacelerar o cliente. A DraftKings nega qualquer tensão entre proteção e negócio, rejeita a acusação de direcionar promoções de forma injusta e afirma que elas se destinam a usuários assíduos, não a pessoas selecionadas por suas perdas. A resposta deve constar. Ela não elimina o conflito: os dados que localizam alguém à beira de uma crise são os mesmos que calculam quanto essa pessoa ainda pode perder.
O que os números das apostas online no Brasil já mostram
Não há base para transferir práticas atribuídas à DraftKings a uma operadora brasileira específica. Há razão de sobra para examinar a arquitetura do mercado que o Brasil legalizou. E os dados oficiais daqui já descrevem o mesmo movimento.
Segundo informações do Ministério da Fazenda obtidas pela Folha de S.Paulo via Lei de Acesso à Informação, as plataformas autorizadas receberam em 2025 R$ 220,6 bilhões em depósitos. Esse total não é dinheiro perdido, porque inclui valores que circularam várias vezes. A medida correta da transferência é o saldo negativo dos apostadores: R$ 36,9 bilhões, ainda preliminares, equivalentes a 16,7% dos depósitos, acima do teto de retenção de 15% previsto em lei.
O primeiro semestre de 2026 é mais revelador. O número de apostadores ativos caiu de 9,2 para 8,5 milhões por mês. Os depósitos recuaram de R$ 99,2 bilhões para R$ 88,5 bilhões. Os prêmios pagos encolheram de R$ 80,1 bilhões para R$ 68,3 bilhões. Ainda assim, a receita das plataformas cresceu 5,9%, chegando a R$ 20,2 bilhões, e a retenção subiu para 22,8% dos depósitos.
Menos apostadores, menos dinheiro entrando, mais dinheiro ficando. O mercado não precisa crescer em usuários para crescer em extração. Precisa apenas melhorar a mira.
Enquanto isso, o alcance acumulado das apostas online chegou a 43,8 milhões de brasileiros até agosto, 27% da população adulta, alta de 75,2% em oito meses. E 5 milhões de CPFs estão hoje bloqueados nas plataformas, dos quais 3 milhões de beneficiários de programas sociais. O Estado precisou barrar 3 milhões de pessoas pobres de um mercado que ele próprio autorizou.
A vulnerabilidade tem endereço
A escala financeira encontra uma população específica. O terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, da Unifesp, estimou que 17,6% dos brasileiros com 14 anos ou mais apostaram nos 12 meses pesquisados, cerca de 28 milhões de pessoas. Desse conjunto, 10,9 milhões aparecem em faixas de risco ou jogo problemático, e aproximadamente 1,4 milhão já preenche os critérios clínicos de Transtorno do Jogo.
Os sinais de dano se concentram no canal digital. Entre usuários de plataformas de apostas esportivas online, 66,8% foram classificados em risco ou jogo problemático, contra 26,8% nas demais modalidades. Entre quem ganhava até um salário mínimo, a proporção foi de 52,8%. Entre adolescentes que apostavam, 55,2%. Convém registrar que a pesquisa foi a campo entre 2023 e 2024, antes da regulamentação entrar em vigor. Ela mede o começo da onda, não o pico.
A Organização Mundial da Saúde estima que pessoas que jogam em níveis nocivos geram cerca de 60% das perdas que formam a receita global do setor. O apostador problemático não é a exceção infeliz na margem do negócio. Ele sustenta o centro dele.
A regulação das bets premia quem extrai
O Brasil reconhece parte desse perigo e conserva os instrumentos que o agravam. A Portaria SPA/MF 1.231, de 2024, obriga o operador a suspender clientes de alto risco conforme sua política de jogo responsável, e ao mesmo tempo a regulamentação admite promoções, programas de fidelidade e apostas grátis. Desde 17 de julho, por força da Portaria SPA/MF 1.964, todo anúncio deve reservar ao menos 10% do seu tamanho a uma advertência. O aviso é verdadeiro. Imaginar que ele neutraliza o patrocínio na camisa, a inserção no intervalo e a oferta personalizada no celular é outra coisa.
O Estado entregou à empresa uma missão incompatível com o seu incentivo: identificar quem precisa parar enquanto aumenta a receita obtida com quem continua. A própria OMS afirma que intervenções de jogo responsável costumam ser ineficazes, sobretudo quando dependem de adesão voluntária. Sem critérios públicos, auditoria independente e acesso do regulador aos modelos, a proteção tende a ser mais fraca que o sistema de retenção. A tecnologia melhor financiada é sempre a que produz receita. E quando o mundo discute as ameaças da IA usando exemplos como bioterrorismo e grandes hecatombes, ela prova já fazer estragos em outras frentes.
O decreto é maior do que parece, e ainda assim insuficiente
O governo prepara um decreto para proibir cassinos online, preservando apostas esportivas e patrocínios, segundo a Reuters. A medida não é cosmética. Pela associação do setor, citando dados oficiais, 73,9% do volume movimentado vem dos cassinos online, e fontes ouvidas pela agência calculam que entre metade e 70% da receita das casas nasce ali. Banir jogos de resultado quase instantâneo atinge o núcleo econômico do negócio, e o texto deve sair antes do primeiro turno, em 4 de outubro, o que convida à leitura eleitoral.
O que sobra, porém, é exatamente o que este artigo descreve. O futebol segue convertido em canal permanente de recrutamento. A publicidade segue normalizando a aposta para crianças antes que elas possam abrir uma conta. E a personalização algorítmica funciona tanto para uma roleta virtual quanto para o número de escanteios de uma partida.
Autonomia pressupõe simetria
A objeção previsível é a da liberdade individual. Adulto informado gasta o próprio dinheiro como quiser, e o Estado não deve tutelar escolhas legais. O argumento seria bom se as partes estivessem em pé de igualdade.
Não estão. De um lado, alguém decide com o que sabe de si. Do outro, uma empresa decide com o que sabe sobre horários, depósitos, retiradas, tentativas de recuperar prejuízo e reação a cada estímulo, processado por modelos treinados para prever o momento exato de insistir. Chamar isso de escolha livre exige ignorar quem tem o dado e quem é o dado.
Caminho possível
Proibir tudo de uma vez empurraria parte da demanda para o mercado clandestino, e esse risco é real. Ele não justifica preservar um mercado legal desenhado para crescer, mas obriga a sequência a ser planejada, combinando bloqueio de pagamentos e de sites ilegais com redução da oferta autorizada.
Enquanto houver operação legal, três medidas decorrem diretamente do que já se sabe. Proibir o uso de dados e de inteligência artificial para aquisição, retenção, reativação e oferta individual de incentivos, liberando esses recursos apenas para redução de danos sob auditoria externa. Tornar obrigatórios limites de perda e de depósito definidos antes do jogo, compatíveis com renda verificada e sem aumento imediato. Retirar as apostas da publicidade, dos patrocínios esportivos e dos programas de fidelidade.
A reportagem americana ilumina a pergunta que a regulação brasileira ainda evita: quando proteger o apostador reduz a receita, qual objetivo vence dentro da empresa? Se a resposta depender da boa vontade de quem lucra com a perda, o resultado já faz parte do modelo.
