Um grupo criado na internet e financiado por investidores ligados à tecnologia e às criptomoedas quer transformar uma comunidade digital em um projeto urbano. O local seria Colônia do Sacramento, no Uruguai.
Na liderança do projeto, a Praxis anunciou a escolha do Uruguai para instalar seu primeiro grande empreendimento urbano. O projeto será desenvolvido dentro do que chama +Colonia, uma nova área residencial e tecnológica em construção nas proximidades de Colônia do Sacramento, às margens do Rio da Prata.
A organização afirma que pretende mobilizar US$ 1 bilhão em investimentos nos próximos três anos, com os primeiros moradores chegando em meados de 2027.
Mas o plano é mais ambicioso do que construir apartamentos, escritórios e hotéis.
A Praxis se apresenta como uma espécie de “nação digital” e quer usar o novo território para experimentar formas de cultura, economia e organização social adaptadas ao que seus fundadores descrevem como um mundo profundamente transformado pela inteligência artificial.
A história foi detalhada pelo The New York Times, que acompanhou o projeto em Colonia. O assunto gerou uma onda de críticas e alertas para entusiastas enxergarem o assunto com a cautela devida.
Que iniciativa é essa
A Praxis foi fundada pelo americano Dryden Brown e passou os últimos anos procurando um lugar para instalar sua comunidade.
O grupo considerou regiões do Mediterrâneo e chegou a avaliar a Groenlândia antes de escolher o Uruguai. Segundo Brown, pesaram fatores como estabilidade política, segurança jurídica, qualidade de vida e proximidade de Buenos Aires.
A escolha também tem razões práticas.
Colônia fica a cerca de uma hora de ferryboat de Buenos Aires, enquanto o Uruguai oferece diferentes modalidades de residência para estrangeiros. O país também possui regimes fiscais específicos para novos residentes, embora as regras tributárias tenham passado por mudanças recentes e variem conforme o tipo de renda.
O empreendimento no qual a Praxis pretende se instalar, chamado +Colonia, já estava em desenvolvimento antes do acordo.
O projeto é liderado pelo empresário argentino Eduardo Bastitta e prevê uma extensa área residencial e empresarial voltada especialmente a profissionais de tecnologia. Parte das construções já está em andamento.
A Praxis pretende inicialmente ocupar uma parcela relevante desse empreendimento. Segundo o anúncio da própria organização, os primeiros residentes poderão ocupar edifícios existentes enquanto o novo bairro é construído ao redor deles.
O que é uma “network state”
Para entender a Praxis é preciso conhecer uma ideia que ganhou influência em determinados círculos de tecnologia e investimento nos Estados Unidos: a network state, ou “Estado em rede”.
O conceito foi popularizado pelo empreendedor Balaji Srinivasan, ex-diretor de tecnologia da Coinbase. A lógica inverte a formação tradicional de um país.
Em vez de uma população ocupar um território e construir instituições, uma comunidade surgiria primeiro na internet. Seus integrantes compartilhariam valores, objetivos, mecanismos econômicos e eventualmente uma moeda digital.
Depois, essa comunidade poderia adquirir propriedades em diferentes lugares e, em uma etapa mais avançada, buscar algum grau de reconhecimento político ou diplomático.
Na definição apresentada pelo próprio projeto The Network State, esses grupos combinariam comunidade digital, capacidade de ação coletiva, governança própria, criptomoedas e territórios adquiridos coletivamente.
A reportagem do New York Times situa a Praxis justamente dentro desse movimento.
Um território pensado para a era pós-IA
A inteligência artificial é o elemento central da narrativa da Praxis. Brown afirma que futuros moradores deveriam desenvolver novos sistemas culturais, econômicos e de governança para um mundo no qual a IA teria transformado profundamente o trabalho.
Em seu próprio site, a organização vai além: afirma que pretende usar inteligência artificial para compreender preferências dos integrantes, coordenar objetivos coletivos e ajudar na elaboração de propostas, dentro de um sistema submetido a uma constituição e supervisão humana.
O projeto também carrega uma forte visão cultural. Brown fala em recuperar elementos da estética grega, romana e renascentista e menciona valores como verdade, beleza e heroísmo. O jornal americano registra que essa combinação de referências clássicas, hierarquia social e cultura tecnológica também alimentou críticas à Praxis ao longo dos últimos anos.
A Praxis já se apresentou como um “criptoestado” e defendeu anteriormente a criação de ambientes jurídicos e regulatórios especiais. Mais recentemente, Brown passou a enfatizar aspectos mais convencionais de uma comunidade urbana, como moradia, cultura, música e lazer.
Por enquanto, continua sendo uma experiência
Há uma diferença importante entre a ambição e aquilo que efetivamente está contratado. O acordo entre Praxis e +Colonia é em grande parte não vinculante e ainda existem dúvidas sobre quanto do plano anunciado será realmente construído.
A própria Praxis descreve os US$ 1 bilhão como investimento planejado para os próximos três anos. Praxis
Existe ainda um precedente importante. A Próspera, em Honduras, tornou-se um dos exemplos mais conhecidos de tentativa de criar uma cidade privada com grande autonomia regulatória. O projeto foi desenvolvido sob legislação especial criada pelo país, mas depois entrou em conflito com o governo hondurenho quando o arcabouço foi revogado.
O caso resultou em arbitragem internacional que permanece ativa no Centro Internacional para Arbitragem de Disputas sobre Investimentos, ligado ao Banco Mundial. Documentos do processo continuaram sendo publicados em setembro de 2026.
Brown afirma que a Praxis pretende evitar esse tipo de conflito e operar, ao menos nesta fase, dentro da legislação uruguaia.
Experiência ainda distante da realidade
O aspecto mais controverso da Praxis pode não estar na arquitetura projetada para Colonia. Está na tentativa de responder a uma questão que deve aparecer com frequência crescente à medida que a IA altera trabalho, empresas e relações sociais: como comunidades serão organizadas quando parte cada vez maior da atividade econômica e da interação humana ocorrer por meio de sistemas digitais?
Para a empresa é simples: primeiro formar uma comunidade digital. Depois reunir capital. Em seguida, ocupar um território físico e tentar construir instituições ao redor dela.
Não há ainda evidências de que esse modelo possa funcionar em escala ou substituir qualquer estrutura tradicional de cidade ou Estado. E muito menos de que a inteligência artificial esteja prestes a eliminar o trabalho humano na extensão prevista por alguns de seus integrantes. Embora o medo quando ao descontrole da IA faça o mundo discutir sua regulação.
Mas a escolha do Uruguai transforma uma ideia que durante anos circulou principalmente em livros, fóruns de criptomoedas e comunidades do Vale do Silício em um experimento muito mais concreto. E aqui do lado do Brasil.
