EUA e China aceleram planos de base na Lua, mirando o mesmo local
Relatório das Academias Nacionais dos EUA indica Bhabha, Mons Hadley, Orientale e Aristarco como prioridades para missões tripuladas fora da região polar disputada por Washington e Pequim

Estados Unidos e China disputam o mesmo pedaço da Lua. As duas potências planejam bases tripuladas perto do polo sul lunar, onde crateras sem luz solar guardam gelo de água. A Nasa quer levar astronautas à região em 2028, com a Artemis 4. A China promete pousar até 2030.
Mas um relatório divulgado na quarta-feira (21 de outubro) pelas Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA alerta que a ciência não deve ficar restrita aos polos. Encomendado pela Nasa, o documento lista quatro destinos para missões curtas: a cratera Bhabha, no lado oculto; Mons Hadley; a bacia Orientale; e o planalto de Aristarco.
“Voltar à Lua será uma grande conquista para a humanidade, e pisar onde nunca pisamos será um momento importante para a ciência”, disse à Scientific American James Day, professor da Universidade da Califórnia em San Diego e coordenador do comitê ao lado de Daniel Dumbacher, da Universidade Purdue
Os lugares preferidos na corrida espacial
A esfra abaixo representa a Lua e os quatro destinos recomendados, a região polar disputada e os pousos que já ocorreram, de as missões Apollo até as sondas chinesas. Arraste para girar, use a roda do mouse ou dois dedos para aproximar e clique em cada ponto para ver a ficha. A linha tracejada marca a fronteira aproximada entre o lado visível da Terra e o lado oculto.
A Lua inteira, não só o polo
Cratera Bhabha
Localizada dentro da bacia Polo Sul-Aitken, a maior e mais antiga bacia de impacto preservada da Lua.
Por que o polo sul da Lua é tão importante
Como o eixo da Lua é quase perpendicular ao seu plano orbital, o Sol nos polos fica sempre rente ao horizonte. O fundo de certas crateras permanece abaixo de -200 °C, preservando água trazida por cometas e asteroides ao longo de bilhões de anos.
Esse gelo pode virar água potável, oxigênio e combustível de foguete, reduzindo o custo de trazer suprimentos da Terra. Já os picos vizinhos recebem luz quase contínua para alimentar painéis solares.
Em março, o administrador da Nasa, Jared Isaacman, apresentou um plano de US$ 20 bilhões em sete anos para uma base polar e suspendeu o formato atual da estação orbital Gateway. Na mesma região, China e Rússia lideram a Estação Internacional de Pesquisa Lunar (ILRS), prevista para 2035.


Quem está na frente
Os EUA lideram o voo tripulado após a Artemis 2 levar quatro astronautas a 406.771 km da Terra em abril. A China domina a superfície com robôs: foi a primeira a pousar (2019) e a coletar amostras (2024) no lado oculto. Nenhum dos dois, porém, tem um módulo de pouso tripulado pronto
O que cada lado já fez para levar gente à Lua
SLS voou em 2022 e abr/2026. SpaceX já pousou o Falcon 9 mais de 600 vezes.
Longa Marcha 10 fez teste suborbital (fev/2026). Variante 10B teve 1º estágio capturado por cabos no mar (jul/2026).
Orion levou 4 astronautas ao redor da Lua na Artemis 2 (recorde de 406.771 km).
Mengzhou testou fuga de emergência (2025 e 2026); 1º voo orbital previsto para ~2027.
Starship (SpaceX) e Blue Moon (Blue Origin) contratados; nenhum pousou na Lua ainda.
Lanyue simulou pouso e decolagem em campo de testes em Hebei (ago/2025).
Artemis 3 foi convertida em teste de acoplamento da Orion com os módulos em órbita da Terra.
Mengzhou e Lanyue subirão separados para acoplar na órbita lunar; ainda não testado.
1 pouso comercial perfeito (Blue Ghost, 2025) e 2 módulos que tombaram perto do polo sul (Odysseus em 2024 e Athena em 2025).
4 pousos perfeitos desde 2013 (dois no lado oculto) e 2 retornos de amostras (Chang’e 5 e 6).
Artemis 4 prevista para pousar no polo sul lunar.
Dois astronautas na superfície com o módulo Lanyue.
Plano de US$ 20 bi em 7 anos no polo sul (Gateway suspensa). Uzbequistão foi o 77º a assinar os Acordos Artemis (19/out).
Estação Internacional de Pesquisa Lunar (ILRS) com a Rússia e parceiros até 2035.


O ritmo chinês preocupa analistas. “Acho que eles vão pôr um humano na Lua antes de nós conseguirmos voltar”, afirmou ao New York Times Todd Harrison, do American Enterprise Institute. Em julho, a China capturou no ar o primeiro estágio do foguete Longa Marcha 10B usando uma rede de cabos em uma plataforma marítima. Embora não seja exigida para a missão lunar, a reutilização barateia lançamentos e acelera a indústria espacial chinesa, que hoje combina inovação inspirada na SpaceX com escala estatal.
Linha do tempo
Da Chang’e 4 às bases de 2035
Cápsula testa fuga de emergência; 1º estágio amerissa controlado.
Nasa prioriza base no polo sul em 7 anos e suspende estação Gateway.
Quatro astronautas contornam a Lua a 406.771 km da Terra.
Missão vira teste orbital na Terra com módulos da SpaceX e Blue Origin.
1º estágio é capturado por cabos em plataforma no mar na estreia.
Sonda que buscaria gelo no polo sul perde janela de lançamento de 2026.
Cientistas indicam Bhabha, Hadley, Orientale e Aristarco como alvos.
Uma base espalhada pelo satélite
Os autores do relatório destacam que os novos alvos não competem com o polo sul. “É para ajudar o Artemis, não para distrair”, disse Clive Neal, da Universidade de Notre Dame, que defende uma “base distribuída” — uma rede de postos interligados. A esterilidade lunar também serve de treino para protocolos de proteção planetária antes de missões a Marte, onde há risco biológico.
A Lua é o nosso livro de história. Com a Apollo, só folheamos as primeiras páginas.
Jack Burns, Universidade do Colorado em Boulder, à Scientific American
Para Erica Jawin, do Planetary Science Institute, explorar fora dos polos responde por que as duas faces da Lua são tão diferentes e quanta água há no interior lunar — tarefas em que o olho humano e a tomada de decisão rápida superam qualquer robô.
O que pode atrasar
O relatório não tem orçamento nem datas vinculantes. E os cronogramas já sofrem atrasos: a Nasa transformou a Artemis 3 em teste orbital na Terra, empurrando o pouso para a Artemis 4 (2028), enquanto a China perdeu a janela de agosto da sonda Chang’e 7. Além da engenharia, pesa a política: nos EUA, trocas de governo frequentemente alteram os rumos da Nasa; na China, o planejamento estatal atravessa décadas sem interrupções.
Fontes: Scientific American (Leonard David, 21.out.2026); Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos EUA; The New York Times (Kenneth Chang); Nasa, Artemis 3; Nasa, Acordos Artemis; Spaceflight Now, base lunar da Nasa; Governo da China, estação lunar; SpacePolicyOnline, Chang’e 7; Space.com, teste do Mengzhou. Mapa: textura e relevo do CGI Moon Kit, Nasa/SVS, com dados da sonda LRO.
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