Nobel de Química premia descoberta sobre assimetria de moléculas

A Real Academia Sueca de Ciências anunciou o Prêmio Nobel de Química de 2026 a Henri B. Kagan e Kenso Soai “pela descoberta dos efeitos não lineares e da autocatálise na síntese orgânica assimétrica.

Ilustração: Niklas Elmehed © Nobel Prize Outreach

O francês Henri B. Kagan, 95, e o japonês Kenso Soai venceram o Prêmio Nobel de Química de 2026, anunciado nesta quarta-feira (7 de outubro) pela Academia Real de Ciências da Suécia, em Estocolmo. Os dois foram premiados “pela descoberta de efeitos não lineares e da autocatálise na síntese orgânica assimétrica”.

Os trabalhos explicam como uma reação química pode produzir quase só uma de duas versões possíveis da mesma molécula. O resultado interessa à indústria farmacêutica, que precisa fabricar a versão certa de cada substância, e à pesquisa sobre a origem da vida.

Duas versões da mesma molécula

Muitas moléculas existem em duas versões feitas dos mesmos átomos, em que uma é a imagem da outra no espelho. Os químicos chamam essa propriedade de quiralidade. Em laboratório, as reações comuns produzem as duas versões em partes iguais.

Nos seres vivos é diferente. Os aminoácidos que formam as proteínas são todos de uma versão, e os açúcares do DNA, da outra. Como essa preferência surgiu é uma pergunta em aberto há mais de um século.

A diferença tem efeito prático. No organismo, as duas versões de uma substância podem agir de modos distintos: uma trata a doença, a outra não faz efeito ou faz mal. Por isso os fabricantes de medicamentos precisam obter apenas a versão desejada.

O que cada um descobriu

Kagan, professor emérito da Universidade Paris-Sud, em Orsay, observou em 1986 que o produto de uma reação pode sair mais puro que o catalisador usado para conduzi-la. Até então, supunha-se que as duas purezas andavam na mesma proporção. Ele mostrou que uma pequena maioria de uma das versões no catalisador pode render uma grande maioria no produto, e criou modelos matemáticos para descrever o fenômeno, chamado de efeito não linear.

Soai, da Universidade de Ciências de Tóquio, descreveu em 1995 a reação que hoje leva seu nome. Nela, o produto acelera a própria formação, processo conhecido como autocatálise. A cada ciclo, a versão que começa em ligeira vantagem aumenta a vantagem, até restar quase só ela.

“Henri Kagan e Kenso Soai deram uma solução a um mistério químico de mais de um século: como a homoquiralidade pode surgir espontaneamente”, disse Heiner Linke, presidente do Comitê do Nobel de Química. Homoquiralidade é o nome dado ao predomínio de uma só versão.

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O que as descobertas não provam

As reações demonstram que um pequeno desequilíbrio entre as duas versões pode ser ampliado por meios puramente químicos. Não demonstram que foi esse o processo ocorrido na Terra primitiva. A reação de Soai usa compostos de zinco que não existiam naquele ambiente, e uma reação equivalente com os ingredientes disponíveis na época ainda não foi encontrada.

Reconhecimento tardio

Kagan é um dos pioneiros da produção de moléculas de uma só versão com o uso de catalisadores. Em 2001, quando o Nobel de Química premiou esse campo, a ausência dele entre os três laureados foi criticada por colegas. O prêmio pode ser dividido por no máximo três pessoas.

O Nobel de Química paga 12 milhões de coroas suecas, cerca de US$ 1,2 milhão. A entrega será em 10 de dezembro, em Estocolmo. Em 2025, o prêmio foi para três cientistas que criaram estruturas moleculares capazes de reter gases. Há expectativa em relação aos próximos anúncios, feitos sempre no início da manhã no horário de Brasília.

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