Quando governos falam em soberania digital, a fórmula parece simples: diminuir a dependência de um fornecedor, sobretudo estrangeiro, e espalhar as compras entre vários. Um estudo publicado no fim de julho por pesquisadores da Universidade Técnica de Munique e da Universidade das Forças Armadas alemãs sugere quenão é bem assim. Tão importante quanto a quantidade de fornecedores de uma rede de comunicação é onde cada um deles fica.
O tema não é acadêmico. A Alemanha fechou acordos com Deutsche Telekom, Vodafone e Telefónica que obrigam as operadoras a retirar componentes críticos da Huawei e da ZTE do núcleo das redes 5G até o fim de 2026, e os sistemas de gestão críticos das redes de acesso e transporte até 2029. A troca está em curso, e a pergunta sobre como redistribuir os equipamentos é concreta.
O que é soberania digital, afinal
Os autores definem soberania de rede de forma pragmática: a capacidade de uma operadora funcionar com dependência mínima de fabricantes. O raciocínio parte de um fato técnico. Equipamentos do mesmo fabricante compartilham software, firmware e cadeia de suprimentos, e por isso tendem a falhar juntos. Uma atualização defeituosa, uma vulnerabilidade, um certificado vencido ou uma sanção internacional podem derrubar de uma vez todos os aparelhos de uma marca.
O artigo lista casos reais. Em 2018, um certificado expirado em equipamentos da Ericsson deixou mais de 25 milhões de clientes da O2 quase um dia sem serviço. Em 2024, a pane da CrowdStrike paralisou sistemas no mundo todo. Em 2025, uma atualização com defeito provocou uma interrupção parcial na rede da Telefónica na Espanha.
A contagem que engana
Para medir essa dependência, os pesquisadores usam um conceito da engenharia de confiabilidade: o conjunto mínimo de corte. É o menor grupo de equipamentos cuja queda simultânea desconecta dois pontos da rede. Numa rede alemã de referência com 17 cidades, por exemplo, a queda conjunta dos nós de Bremen e Dortmund basta para isolar Norden de Munique.
A partir daí, o estudo chega a uma conclusão contraintuitiva. Imagine uma conexão com duas rotas alternativas, em que cada par de equipamentos que pode cortá-la precisa cair junto. Se os dois pares forem montados com os mesmos dois fabricantes, a conexão só cai quando esses dois fabricantes falham ao mesmo tempo. Se o segundo par for montado com dois fabricantes novos, a rede passa a ter quatro fornecedores, mas também duas maneiras diferentes de cair. Mais marcas, mais dependências.
A regra que vem à tona consiste em misturar fabricantes dentro de cada conjunto crítico e repetir os mesmos fabricantes entre conjuntos diferentes. Os autores traduziram isso numa métrica chamada Cut Set Diversity e num modelo de otimização, o Iroh (“cor”, em japonês), que sugere de qual fabricante comprar cada equipamento respeitando um limite de orçamento.
Não dá para ter tudo
O resultado mais relevante para quem decide políticas é o conflito entre dois objetivos. Quando o modelo prioriza apenas a disponibilidade, ele tende a concentrar os pontos críticos no fabricante mais confiável. A rede fica ótima no dia a dia e frágil diante da perda desse fornecedor: nas simulações, essas configurações mantiveram só cerca de 20% das conexões quando um único fabricante saía de cena. As configurações que priorizam soberania resistem muito melhor, mas entregam disponibilidade menor no cotidiano.
Não existe configuração que maximize as duas coisas ao mesmo tempo. O que o método oferece é a possibilidade de escolher a prioridade de forma explícita e medir o preço de cada escolha.
Cenário brasileiro
O Brasil enfrentou a mesma questão por outro caminho. No leilão do 5G, o governo decidiu não vetar a Huawei. Em vez disso, obrigou as operadoras vencedoras a construir uma rede privativa para uso exclusivo do governo, com exigências de governança que, na prática, excluem os equipamentos da empresa chinesa. É uma estratégia de separação: isolar a rede sensível e manter a comercial aberta.
O estudo alemão aponta para uma estratégia complementar, a de desenhar cada rede para sobreviver à perda de qualquer fornecedor. Ele não resolve o problema, mas muda a pergunta. Em vez de “quantos fornecedores temos?”, a questão passa a ser “quantos precisam cair para a rede parar?”.
