O lixo espacial deixou de ser um problema de longo prazo e passou a ser medido em múltiplos de um limite já ultrapassado. A décima edição do relatório anual sobre o ambiente espacial da Agência Espacial Europeia (ESA), divulgada em setembro, estima que o risco associado à órbita baixa da Terra, mantidas as tendências atuais, será 50 vezes maior do que o patamar que a própria agência considera sustentável.
Na edição anterior, a mesma conta dava quatro vezes. O salto não vem de um acidente em órbita, mas de uma mudança de escala: 2025 teve mais de 300 lançamentos e 4.409 novos satélites catalogados, e marcou o início da implantação sistemática de várias novas megaconstelações. A divulgação do relatório coincide com um momento no qual a corrida pela “dominação” da Lua ganhou novo ritmo, com países projetando a instação de reatores nucleares no satélite.
Quanto lixo espacial existe hoje
No fim de 2025, as redes de vigilância acompanhavam 44.964 objetos em órbita da Terra, que somam cerca de 15,9 mil toneladas. Desses, 16.946 são satélites, ativos ou não. O restante é formado por estágios de foguetes, peças liberadas em missões, fragmentos de explosões e colisões e mais de 11 mil objetos ainda sem origem identificada.
O que se rastreia é a menor parte. O modelo estatístico da ESA, com referência em 1º de fevereiro de 2026, estima:
- 68.450 objetos maiores que 10 centímetros, dos quais cerca de 11.300 são satélites em operação;
- 1,5 milhão de detritos entre 1 e 10 centímetros;
- 230 milhões de fragmentos entre 1 milímetro e 1 centímetro.
Mais da metade dos objetos rastreados, 25.060, está na órbita baixa, a faixa até 2 mil quilômetros de altitude onde operam as constelações de internet e boa parte dos satélites de observação. Os números são atualizados pela agência em um painel público de estatísticas.
Megaconstelações mudam a escala do tráfego
O relatório descreve uma transformação em curso desde 2015: satélites menores, grandes constelações e predomínio de operadores comerciais. Em 2025, a frequência de lançamentos e o uso de voos compartilhados, que levam dezenas de cargas de uma vez, voltaram a bater recorde. Dos 8.488 objetos acrescentados ao catálogo no ano, 4.772 foram para a órbita baixa.
A concentração é maior entre 400 e 600 quilômetros de altitude. Nessa faixa, a maior parte dos alertas de aproximação já envolve dois satélites ativos, e não um satélite e um detrito. Para a ESA, isso torna a coordenação de tráfego entre operadores tão necessária quanto a limpeza. Acima dali, o risco continua dominado por fragmentos antigos, que levam décadas ou séculos para cair.
Há um dado menos intuitivo. Segundo o índice da agência, 96% do risco acumulado na órbita baixa vem de objetos inativos, sobretudo estágios de foguetes abandonados, com concentração em torno de 850 quilômetros de altitude. É um passivo de décadas, de responsabilidade majoritariamente estatal, sobre o qual o tráfego comercial agora se soma. A discussão sobre quem controla essa infraestrutura conversa com o debate sobre soberania digital. (continua abaixo)
Dúvidas frequentes
O que é o Space Environment Report da ESA e por que ele é publicado anualmente?
O Space Environment Report é um documento de referência pública elaborado anualmente pelo Escritório de Lixo Espacial da Agência Espacial Europeia (ESA) desde 2017. A sua publicação responde diretamente às Diretrizes para a Sustentabilidade de Longo Prazo das Atividades no Espaço Sideral (Diretrizes LTS) do Comitê das Nações Unidas para o Uso Pacífico do Espaço Sideral (UNCOPUOS) — especificamente à diretriz C.4, voltada à promoção da conscientização global. O objetivo central do relatório é quantificar a evolução do ambiente orbital terrestre e monitorar a adesão internacional às normas de mitigação de detritos.
O que é considerado, estritamente, “lixo espacial” ( space debris )?
lixo espacial engloba qualquer objeto artificial em órbita terrestre ou reentrando na atmosfera que não possua mais uma função útil. Essa definição abrange desde satélites desativados e estágios superiores de foguetes até pequenos fragmentos gerados por explosões ou colisões.
O que é a órbita baixa da Terra?
A Órbita Baixa da Terra
(conhecida como LEO, do inglês Low Earth Orbit) é a região do espaço mais próxima do nosso planeta, situada a uma altitude de até 2.000 quilômetros da superfície terrestre. É nela que orbitam a maioria dos satélites artificiais, a Estação Espacial Internacional (ISS) e os satélites de internet como os da Starlink. As órbitas espaciais são classificadas principalmente de duas formas: por sua altitude (distância da Terra) e por sua inclinação/formato.
Explosões ainda geram mais detritos que colisões
A principal fonte de detritos espaciais não são as colisões, e sim as fragmentações: explosões e rupturas de satélites e foguetes, muitas ligadas a sistemas de propulsão e a projetos com falhas conhecidas. Nas últimas duas décadas, ocorreram em média 9,8 fragmentações não intencionais por ano.
O ano de 2025 foi relativamente calmo, com três eventos confirmados, em contraste com 2024, quando rupturas ligadas à propulsão acrescentaram mais de 3 mil fragmentos ao catálogo. O relatório registra, porém, um descompasso: o número de objetos de origem não identificada continua crescendo, e a maioria dos fragmentos dos eventos de 2025 foi detectada por redes alternativas de vigilância, sem entrar no catálogo da rede dos Estados Unidos.
Regras ainda não bastam
A referência internacional, definida pelo comitê que reúne as agências espaciais (IADC), é que um satélite ou foguete deixe a órbita baixa em até 25 anos após o fim da missão. O relatório mostra avanço desigual no cumprimento dessa regra:
- entre 88% e 99% dos satélites com menos de uma tonelada que encerraram a missão desde 2020 já operavam em órbitas baixas o bastante para cair sozinhos no prazo;
- entre os satélites maiores, só 54% devem sair de órbita em 25 anos;
- dos satélites em órbitas que exigem manobra de descarte, de 15% a 60% tentaram fazê-la na última década, e de 5% a 50% conseguiram;
- entre os foguetes, a parcela de reentradas controladas subiu de 10% para mais de 65% em dez anos.
Parte da melhora é efeito das próprias constelações, que voam baixo e se renovam rápido. A ESA avalia que o nível atual é insuficiente e que a taxa de descarte bem-sucedido, cuja meta habitual é de 90%, terá de se aproximar de 100%. Desde 2023, a agência adota para seus projetos um prazo de cinco anos, dentro da política Zero Debris. As diretrizes da ONU para a sustentabilidade das atividades espaciais, de 2019, não são vinculantes.
Mais de três objetos caem do céu por dia
O que sobe, em algum momento, desce. Cerca de 1.200 objetos inteiros, entre satélites e estágios de foguetes, reentraram na atmosfera em 2025, mais de três por dia. A maioria se desintegra, mas fragmentos podem chegar ao solo.
A edição deste ano traz, pela primeira vez, uma estimativa agregada do risco para pessoas em terra. O risco individual segue extremamente baixo. O número esperado de vítimas no conjunto das reentradas não controladas, no entanto, vem subindo e tende a crescer com o volume de quedas, se projetos mais seguros não forem adotados. O limite aceito para cada reentrada é de uma chance em 10 mil de causar uma vítima, mas o parâmetro foi pensado para objetos isolados, não para milhares por ano.
O que significa o risco 50 vezes acima do limite
A ESA resume a saúde da órbita em um índice que combina a probabilidade de cada objeto se fragmentar e o dano que isso causaria aos satélites em operação. O valor é comparado a um ambiente de referência: o tráfego de 2014, anterior às megaconstelações, com as diretrizes internacionais cumpridas em 90% dos casos. A agência compara esse limiar ao teto de 1,5 °C do Acordo de Paris.
Na simulação que extrapola o comportamento atual por cem anos, o número de objetos maiores que 10 centímetros na órbita baixa passa de 400 mil, e o de colisões catastróficas acumuladas supera 1.500. É o cenário da chamada síndrome de Kessler, a reação em cadeia em que cada colisão produz fragmentos que provocam novas colisões. Mesmo no cenário hipotético sem nenhum novo lançamento, a quantidade de lixo espacial continua aumentando, porque os objetos que já estão lá seguem se chocando.
O que o número não diz
O salto de 4 para 50 pede leitura cuidadosa. O relatório afirma que ele decorre principalmente da população futura projetada, isto é, dos planos de novas constelações, e não de uma piora medida em órbita ao longo de 2025. A ESA admite que faltam informações detalhadas e verificáveis sobre esses planos, sobre a operação e sobre o descarte dos satélites, e que o modelo depende de premissas. O horizonte da simulação também mudou, de 200 para 100 anos, o que limita a comparação direta com edições anteriores.
O documento diz que o valor não deve ser lido como previsão determinística e que o quadro pode melhorar de forma substancial, ou piorar, conforme o comportamento real dos operadores se torne observável. O índice mede, portanto, tanto o risco quanto a falta de transparência do setor. Uma conclusão independe das premissas: segundo o relatório, uma única constelação mal gerida pode comprometer a estabilidade de toda a órbita baixa.
O relatório completo, de 152 páginas, está disponível em inglês. Outras reportagens sobre o tema estão em Ciência.
Resumo e conclusão: a preservação do espaço sideral como um recurso finito exige a adesão rigorosa e imediata de todos os operadores públicos e privados aos novos padrões de remoção orbital rápida, garantindo a sustentabilidade das atividades espaciais para as futuras gerações.
