A única mina brasileira que produz terras raras em escala comercial pertence, desde setembro, a uma empresa que a China incluiu em sua lista de controle de exportações. O calendário que define o acesso a esses minerais acaba de ser empurrado para janeiro, numa negociação entre Pequim e Washington, deixando de fora o Brasil.
Em 22 de junho, o Ministério do Comércio chinês pôs dez empresas americanas nessa lista, entre elas a USA Rare Earth. Em 3 de setembro, a mesma companhia concluiu a compra da Serra Verde, dona da mina Pela Ema, em Minaçu (GO), num negócio de cerca de US$ 2,8 bilhões. A inclusão na lista chinesa significou na prática a restrição a insumos, mas a a americana seguiu adiante na aquisição da mineradora goiana para expandir suas operações
Terras raras são 17 elementos químicos usados em ímãs de alto desempenho, presentes em motores elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos e sistemas de armas. Apesar do nome, não são escassas. O gargalo está na separação química dos elementos, etapa que a China domina, como mostrou a reportagem sobre o projeto Caldeira, em Minas Gerais.
Uma trégua de dois meses
Em outubro de 2025, Pequim ampliou seus controles de exportação. Incluiu mais cinco elementos, equipamentos, tecnologia de processamento e uma regra que alcança produtos fabricados fora do país com material chinês. Um mês depois, suspendeu esse pacote por um ano, até 10 de novembro de 2026. Durante a visita de Xi Jinping a Washington, em setembro, o prazo foi estendido até 10 de janeiro de 2027. Segundo relatos da imprensa americana, os EUA queriam seis meses; a China, dois anos.
A trégua deixa de fora o que mais pesa. As restrições de abril de 2025 continuam em vigor e exigem licença para exportar sete elementos, entre eles o disprósio e o térbio, que permitem aos ímãs suportar o calor dentro de motores elétricos. É esse controle que separa os mercados.
Prazos curtos funcionam como instrumento de negociação, e Pequim negocia país a país. Com os EUA, negociou uma trégua. Com a União Europeia, a China se comprometeu, em outubro, a manter um canal para acelerar pedidos de licença de empresas europeias, no mesmo pacote em que os dois lados acertaram as regras para carros híbridos.
O que o Brasil produz e para onde vai
A Serra Verde é descrita como a única operação fora da Ásia capaz de produzir em escala os quatro elementos dos ímãs permanentes: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. A presença de disprósio e térbio na lista restrita de Pequim torna o ativo brasileiro estratégico para os Estados Unidos.
A empresa, porém, não separa esses elementos no Brasil. Segundo a Folha de S.Paulo, produz em Minaçu um carbonato misto de terras raras e ainda não definiu onde terá uma unidade de separação. Até pouco tempo, o destino natural desse concentrado era a China. A Serra Verde chegou a negociar contratos de dez anos com processadoras chinesas.
A virada foi contratual. Toda a produção da primeira fase irá por 15 anos para uma sociedade criada para comprá-la, capitalizada em US$ 1,55 bilhão, dos quais US$ 750 milhões vieram do Departamento de Guerra americano. A meta é chegar a cerca de 4 mil toneladas anuais de óxidos até o fim de 2026 e a 6,4 mil toneladas numa segunda fase, segundo a USA Rare Earth.
A lista chinesa pesa sobre esse arranjo. O anúncio de junho proíbe que qualquer empresa ou pessoa, em qualquer país, transfira às companhias listadas itens de uso civil e militar originados na China. As duas mineradoras americanas incluídas disseram que o efeito seria sobretudo simbólico, porque já haviam cortado fornecedores chineses. Em Goiás, o Jornal Opção ouviu de uma fonte que um contrato de fornecimento de equipamentos chineses para a Serra Verde foi interrompido. A empresa não comentou.
O Brasil fora da mesa
A trégua chinesa termina em janeiro de 2027. No dia 1º, fornecedores da defesa americana perdem a via prática para usar ímãs chineses, por determinação de uma ordem executiva de julho. A combinação tende a aumentar o valor de Minaçu para Washington e a atenção de Pequim sobre ela.
A reação brasileira tardou. A venda da Serra Verde foi concluída 13 dias antes da sanção da lei que criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e passou a exigir que o governo homologue mudanças de controle nesse setor, como detalhou a reportagem sobre o BNDES e o projeto Caldeira. A única produtora comercial do país ficou fora do novo filtro. Nos anúncios de setembro e outubro sobre a trégua sino-americana e o acordo sino-europeu, o Brasil não aparece.
O tema é estratégico para as próximas décadas, mas o país tem sérias limitações industriais quando se trata de agregar valor. Sem a capacidade de separar os elementos em território nacional, o país exporta um concentrado, e quem faz a separação fica com o valor e com o poder de barganha.
Realizar a separação no Brasil exige química especializada, licenciamento ambiental e anos de maturação. Acordos de suprimento com contrapartidas atraem capital rápido, mas reduzem a margem de escolha futura. Vender a quem pagar mais já está limitado, em Minaçu, por um contrato de 15 anos.
O próximo governo, a ser escolhido no domingo (25 de outubro), herda o tema já submetido a um calendário definido por outros países.
