Governança da inteligência artificial: a ONU chega tarde

Sede das Nações Unidas em Nova York, onde o Conselho de Segurança discute a governança da inteligência artificial

Nesta quarta-feira (23 de setembro), o Conselho de Segurança das Nações Unidas dedica uma sessão aberta à governança da inteligência artificial e à segurança internacional. A França, que preside o Conselho em setembro, convocou a reunião. Quem a conduz é o ministro das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot. E quem fala aos quinze membros é Sam Altman, presidente-executivo da OpenAI, que deve defender coordenação internacional e padrões compartilhados de segurança.

Não é a estreia do tema. O primeiro debate do Conselho sobre o assunto ocorreu em julho de 2023, sob presidência britânica, com participação do secretário-geral António Guterres. O ineditismo, agora, é outro: quem se dirige ao órgão é o executivo de um dos laboratórios que produzem a tecnologia sob exame. E isso acontece na semana em que a Assembleia Geral se reúne sob o tema “Restaurar a Confiança, Gerir a Transformação”, na última sessão de Guterres no cargo.

Uma instituição sem meios para arbitrar

O contraste entre o tema e a circunstância resume a semana. A organização que se propõe a restaurar a confiança global anunciou no início do ano o risco de um colapso financeiro. Seu principal órgão segue travado pelo veto de potências que são parte nos maiores conflitos em curso. E os Estados Unidos, maiores financiadores, acumulam um débito superior a um bilhão de dólares.

O efeito não é abstrato. O programa de resposta ao HIV perdeu quase um quarto do financiamento mundial em 2025. A testagem caiu 22%. A distribuição de preservativos caiu mais de 90%. Uma instituição nessa condição não vai arbitrar modelos de fronteira.

Em Washington, disputa aberta

No outro polo da decisão, o quadro também não é de consenso adiado, e sim de disputa explícita. O presidente Donald Trump classificou publicamente o temor de riscos catastróficos da IA como embuste, enquanto o secretário do Tesouro, Scott Bessent, negocia com a contraparte chinesa algum gesto de cooperação em segurança para a visita de Xi Jinping.

Reportagem do New York Times mostra que as ideias mais ambiciosas já saíram da mesa, entre elas a revisão prévia de modelos antes do lançamento público. Um diplomata envolvido descreve como melhor cenário possível a criação de um grupo de trabalho. No mesmo texto aparece uma constatação mais reveladora que qualquer declaração: não há, na Casa Branca, um responsável único pela coordenação da política de IA.

A percepção dos especialistas ajuda a explicar a ausência de urgência. Na pesquisa que embasa o Global Risks Report 2026, do Fórum Econômico Mundial, os resultados adversos da IA saltam da 30ª posição no horizonte de dois anos para a 5ª no horizonte de dez. É a maior escalada entre todos os riscos avaliados, num levantamento que ouviu mais de 1.300 especialistas. A leitura dominante, portanto, é de um problema grave, porém distante. As instituições estão calibradas para a próxima década.

O ecossistema informacional já mudou

Esse, no entanto, já mudou. O Digital News Report 2026, do Instituto Reuters, registra que, pela primeira vez, redes sociais e plataformas de vídeo se tornaram a fonte de notícias mais usada no mundo, com 54% das audiências. A confiança na informação caiu para 37%, o menor patamar já medido pela série.

O uso semanal de chatbots para se informar subiu de 7% para 10% globalmente. A devolução de tráfego às fontes é o ponto crítico: em 27 mercados, apenas 4% do total de respondentes dizem clicar sempre ou com frequência no material original a partir de uma resposta de IA, contra 19% na busca e 17% nas redes sociais. Um terço dos usuários recorre ao chatbot justamente para avaliar a confiabilidade de uma fonte.

A transição é essa. As plataformas digitais intermediavam a distribuição da informação. A inteligência artificial passou a intermediar a sua interpretação. Hoje um comunicado oficial é recortado, comentado, sintetizado e reordenado antes de chegar ao cidadão, que pode nunca visitar a fonte.

Persuasão e erro crescem juntos

O problema é que a síntese automatizada erra na proporção em que convence. Estudo publicado na revista Science, com 19 modelos de linguagem, 707 temas políticos e mais de 76 mil respostas, mostrou que o pós-treinamento dedicado à persuasão elevou o poder de convencimento em até 51%. Estratégias de prompting acrescentaram até 27%.

Os autores checaram 466.769 alegações produzidas pelos modelos e identificaram o mecanismo. A persuasão vem da densidade informativa, ou seja, da capacidade de empilhar afirmações verificáveis. E os mesmos recursos que aumentaram o convencimento reduziram de forma sistemática a exatidão factual. Em termos práticos, quanto mais convincente a resposta, maior a probabilidade de ela estar errada.

Governança da inteligência artificial sem árbitro

É aqui que a conta se fecha. O multilateralismo está sem dinheiro e sem mandato. A maior potência tecnológica trata o risco como questão eleitoral. E o novo intermediário da interpretação foi otimizado para persuadir antes de acertar. Nesse arranjo, a verificação deixa de ser função de uma instância externa e migra para quem produz e publica informação.

Isso não significa rejeitar a tecnologia. Significa tratar proveniência, contexto e correção como parte do produto, e não como etapa posterior. Nenhuma assembleia vai restaurar a confiança por declaração. Em 2026, confiança é o que sobra depois que alguém se deu ao trabalho de conferir.

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