A corrida para instalar reatores nucleares na Lua reúne dois desafios: manter bases funcionando longe da Terra e definir quem poderá explorar os recursos ao redor delas. Os Estados Unidos querem preparar um reator para lançamento até dezembro de 2030. A Rússia, parceira da China em um projeto de estação lunar, trabalha com a meta de 2036. Os prazos são ambiciosos e ainda dependem de soluções técnicas.
Os planos são detalhados em duas reportagens de Selam Gebrekidan publicadas pelo The New York Times neste domingo, 4 de outubro: a corrida pelos reatores lunares e a disputa sobre quem pode controlar a Lua. Lidas em conjunto, mostram como uma decisão de engenharia pode ter consequências geopolíticas.
Por que reatores na Lua
Uma base precisa de eletricidade para comunicação, aquecimento, equipamentos científicos e veículos. Painéis solares ajudam, mas dependem das condições de iluminação. Em muitas regiões lunares, a noite dura aproximadamente duas semanas terrestres. No polo sul, o relevo cria condições muito diferentes entre áreas iluminadas e crateras permanentemente sombreadas.
A fissão nuclear oferece geração contínua, independente da luz solar. Em janeiro, a NASA e o Departamento de Energia dos EUA reafirmaram a meta de desenvolver um reator lunar até 2030. A agência apresenta essa fonte de energia como parte da infraestrutura necessária para missões prolongadas e futuros projetos em Marte.
Esses reatores diferem dos geradores de radioisótopos já usados em missões espaciais. Os geradores aproveitam o calor do decaimento natural de materiais radioativos. Um reator produz energia por uma reação de fissão controlada, com potencial para atender demandas maiores.
Os projetos ainda precisam sair do papel
Segundo os documentos examinados pelo NYT, o projeto americano Lunar Reactor 1 prevê 20 quilowatts de potência elétrica e cinco anos de operação sem intervenção. O russo Selena teria até 10 quilowatts e autonomia de uma década. São especificações de projetos em desenvolvimento, sujeitas a mudanças.
Transportar o equipamento é apenas uma etapa. Será necessário pousá-lo com segurança, dissipar calor no ambiente lunar, proteger astronautas da radiação e manter o sistema funcionando sem uma equipe de manutenção por perto. Um aspecto importante que fica de fora dessa discussão é como o espaço tem sido cada vez mais afetado por detritos. Um estudo de setembro de 2026 da Agência Espacial Europeia (ESA) mostrou o tamanho do problema e os riscos que podem causar.
A Lua pode ter dono?
O Tratado do Espaço Exterior, de 1967, proíbe a apropriação nacional da Lua, inclusive por uso ou ocupação. Instalar uma base, portanto, não transforma o terreno em território de um país. O problema é definir como esse princípio se aplica à exploração econômica e à convivência entre instalações.
Uma das distinções centrais é entre possuir o solo e utilizar recursos extraídos dele. Os Acordos Artemis, promovidos pelos Estados Unidos, defendem que a extração de recursos pode ser compatível com o tratado. Trata-se de um conjunto de compromissos políticos, não de uma regra universal aceita por todas as potências espaciais.
O polo sul concentra interesse pela presença de água congelada. Mas identificar um recurso não significa ter uma operação economicamente viável para extraí-lo. O NYT destaca que os custos e as incertezas ainda dificultam transformar a promessa de mineração lunar em negócio.
Quando segurança vira disputa por acesso
Reatores exigirão medidas para proteger pessoas e equipamentos. A controvérsia aparece quando uma distância de segurança passa a restringir o acesso de outras missões a locais valiosos. Há um receio de que China e Rússia estabeleçam uma área de exclusão ajudou a acelerar os planos americanos.
Os Acordos Artemis apresentam zonas de segurança como instrumentos de comunicação e coordenação para evitar interferências prejudiciais. A questão é como dimensionar essas áreas e impedir que uma precaução técnica funcione, na prática, como controle territorial.
Essa é a conexão entre as duas reportagens: chegar primeiro pode dar vantagem operacional e influência sobre os padrões adotados depois. Não equivale a adquirir soberania, mas pode tornar mais difícil a entrada de novos participantes.
Os riscos continuam depois do pouso
Os projetos preveem ligar os reatores somente após a chegada à Lua. Transportar combustível ainda não irradiado reduz o risco radiológico em comparação com um reator que já operou. Isso não elimina a necessidade de avaliar falhas no lançamento, no pouso e durante o funcionamento.
Outro desafio é o fim da vida útil. De acordo com o NYT, os planos americanos e russos preveem deixar o material radioativo na superfície lunar. Blindagem, isolamento e acompanhamento de longo prazo tornam-se, assim, parte do problema desde o projeto inicial.
A próxima etapa da corrida espacial dependerá da capacidade de sustentar operações e de negociar limites para elas. Um reator pode viabilizar pesquisa e presença humana duradoura. Também pode transformar a infraestrutura de energia em instrumento de poder num lugar que nenhum país pode reivindicar como seu.
