A China, que em 1978 publicava menos de 120 artigos científicos por ano em revistas internacionais, lidera hoje a produção de pesquisa de alto nível no mundo e se prepara para gastar ainda mais. O governo de Xi Jinping quer elevar o investimento total em pesquisa e desenvolvimento (P&D) em pelo menos 7% ao ano até 2030 e agora tenta corrigir o ponto mais frágil desse sistema: a pesquisa básica, aquela que busca conhecimento sem aplicação imediata e costuma estar na origem das grandes descobertas.
O diagnóstico está em reportagem publicada pela revista científica Nature. Em abril, numa reunião em Xangai, Xi pediu a governos regionais, universidades e institutos que pusessem a pesquisa fundamental no topo da agenda. Um mês antes, o novo plano quinquenal havia prometido investimentos pesados em ciência e acelerar, até o fim da década, áreas como inteligência artificial, tecnologias quânticas e fusão nuclear controlada.
O contraste com os Estados Unidos é parte da história. Enquanto Pequim amplia o orçamento, o governo de Donald Trump tenta cortar verbas federais para ciência. Para Yanbo Wang, pesquisador de política científica da Universidade de Hong Kong ouvido pela Nature, se a competição com o Japão nos anos 1980 foi uma tempestade para o Ocidente, “a China trará um tsunami”.
Da fábrica ao laboratório
Nas últimas três décadas, o gasto chinês com P&D, somando governo e empresas, cresceu cerca de cem vezes. Na última década, a alta média superou 10% ao ano. Em 2024, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a China passou os Estados Unidos e se tornou o país que mais investe no setor quando os valores são ajustados pela paridade do poder de compra, método que considera que bens e serviços custam menos no país. Pela taxa de câmbio, o gasto chinês equivalia a cerca de metade do americano, ante 8% em 2004.
A vantagem que pesquisadores chineses apontam é a continuidade. Um sistema centralizado consegue manter prioridades por décadas, enquanto mudanças de governo nos EUA alteram rumos e orçamentos. O caso dos semicondutores ilustra o método: um fundo estatal criado em 2014 com cerca de 100 bilhões de yuans (US$ 16,3 bilhões à época) ganhou em 2024 uma terceira rodada de 344 bilhões de yuans, cerca de US$ 50 bilhões, depois que Washington proibiu, em 2022, a venda de chips avançados ao país.
Os resultados apareceram. Em 2025, a startup DeepSeek, de Hangzhou, lançou um modelo de linguagem que rivalizava com os das gigantes americanas a uma fração do custo. A estação espacial Tiangong foi concluída em 2022, o país foi o primeiro a pousar um robô no lado oculto da Lua e trazer amostras de lá, e planeja levar astronautas à superfície lunar até 2030. Uma missão a Marte deve partir em 2028 para trazer amostras três anos depois. Pequim trata essas metas como questão de soberania tecnológica, num cenário em que a disputa com os EUA já alcança minerais estratégicos como as terras raras.
No ranking Nature Index 2026, que mede a participação de cada instituição em 178 revistas científicas selecionadas, a Academia Chinesa de Ciências segue em primeiro lugar. A Universidade de Zhejiang tirou de Harvard o posto de principal universidade, e a produção chinesa cresceu 22,4% de 2024 para 2025.
Muitos artigos, poucas descobertas disruptivas
A pesquisa básica é o elo fraco. Em 2024, ela recebeu pouco menos de 7% do orçamento chinês de P&D, contra 14,4% nos Estados Unidos, 11,6% no Japão e 14,7% na Coreia do Sul, segundo cálculos do analista Chris Martin com dados da OCDE. A fatia chegou a um recorde de 7,08% em 2025, abaixo da meta de 8% do plano anterior. O plano atual não fixa meta.
O obstáculo maior, segundo pesquisadores ouvidos pela Nature, é a cultura acadêmica. Cientistas chineses são avaliados pelo número de artigos em revistas influentes e pelo volume de verbas que captam, critério que desestimula projetos longos e de resultado incerto.
Uma reforma de 2020 tentou mudar o sistema, mas universidades seguem usando a contagem de publicações para contratar e promover. O volume tem efeito colateral: entre 2014 e 2024, quase 60% dos artigos científicos retratados no mundo tinham autores ligados a instituições chinesas.
Em outras palavras, a China aprendeu a produzir ciência em escala e com foco em aplicações, mas ainda não criou as condições para o pesquisador apostar anos numa pergunta que pode não dar em nada. É desse tipo de aposta que costumam sair prêmios Nobel e tecnologias que ninguém havia encomendado. Problemas de integridade, a morte de dois pacientes em testes clínicos no ano passado, a desaceleração da economia e as tensões com Washington completam a lista de freios possíveis.
O espelho brasileiro
O Brasil tem o problema inverso. O país aplica cerca de 1,23% do PIB em P&D, metade de origem pública e metade privada, segundo indicadores do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação divulgados em junho. A meta oficial é chegar a 2% até 2034. Estudos sobre o sistema brasileiro descrevem um modelo mais centrado na oferta de ciência básica, feita sobretudo em universidades públicas, do que no desenvolvimento de tecnologia por empresas.
A China construiu primeiro a máquina de aplicar conhecimento e agora tenta financiar a curiosidade. O Brasil tem tradição em pesquisa acadêmica, mas pouca capacidade de transformá-la em produtos e indústria, como mostra o caso das terras raras, em que o país exporta concentrado por não dominar a etapa de separação. As duas trajetórias indicam que nenhuma das pontas funciona sozinha.
O que distingue Pequim é a capacidade de sustentar um plano por décadas e corrigi-lo no caminho. Se conseguir afrouxar a pressão por volume sem perder escala, a China deixará de ser apenas a maior produtora de artigos científicos para disputar também o lugar de onde saem as descobertas que mudam as áreas do conhecimento. É esse o salto que o plano de Xi tenta dar.
