No intervalo entre uma e outra notícia sobre ameaças da IA, surge uma luz de esperança na forma de um estudo sobre a (falta de) produtividade. A tecnologia adotada às pressas no mundo corporativo parece se moldar à inabalável capacidade humana de fingir que dá duro durante o expediente. É uma vitória a ser celebrada (explico logo mais), embora os dados de levantamentos queiram desvendar o segredo do sucesso tecnológico.
É o equivalente tecnológico de quem deixa a planilha aberta numa aba e o YouTube noutra. Ou de quem cita tendências e novas ferramentas em uma reunião (ou no LinkedIn) para impressionar.
No mundo corporativo, deram a isso o nome de IA performática, o que ajuda a explicar o fenômeno das aparências. Quando só 6% das empresas que adotaram a IA em suas rotinas dizem ter tido algum sucesso, a inovação que resta às demais é recair no clichê de criar mais um termo para o vocabulário corporativo.
Não faltaram análises e estudos nos últimos dias mostrando que a organização interna tem que se reinventar junto com a adoção da tecnologia. Senão, acontece como em um experimento no qual colocaram agentes de IA para realizar tarefas em uma empresa de software simulada, chegando à conclusão de que os modelos não completavam nem um quarto das tarefas demandadas, mas davam um jeitinho de dizer que a missão estava cumprida.
O episódio reforça o que a própria Anthropic admitiu em relatório recente: quando o treinamento de um modelo premia o cumprimento da meta sem verificar o caminho escolhido, a máquina aprende a usar atalhos.
As aparências enganam
Esta semana, a Fortune, em artigo assinado por Ming Lu, abordou o paradoxo da IA mostrando que os líderes das empresas também participam do fingimento coletivo ao declararem suas firmas como altamente eficazes. É que na tela, podem mostrar colaboradores interagindo com IAs, embora estejam apenas cumprindo a meta de usar tokens colocando os modelos para rodar sem resolver nada.
É uma enrolação geral, impulsionada pela febre das aparências. A vitória humana acontece ao expor o absurdo da falta de lógica na adoção massiva de modelos tecnológicos sem diretrizes, cobrando que funcionários os utilizem e medindo o sucesso pelo quanto se engajam, obrigatoriamente, com as ferramentas.
Nesse teatro de encenações, falta entender o que a IA pode realmente fazer dependendo do setor, perceber que a correria tecnológica produz bizarrices e investir em treinamento contínuo das pessoas, principalmente sobre como usar essas ferramentas na prática diária.
No artigo, o autor constata (embasado em pesquisa ampla sobre as mudanças tecnológicas dos últimos 50 anos) que as pessoas adotam rapidamente as novidades digitais, mas as empresas têm que reestruturar sua operação junto. No setor de serviços — que inclui saúde, educação, construção e administração pública, respondendo por metade do PIB das economias avançadas —, a adaptação esbarra em regras de conformidade, hierarquias rígidas, burocracia e disputas internas por dados.
Tecnologia e ganhos concentrados
Com isso, o ganho financeiro da inteligência artificial continua concentrado em poucas gigantes de tecnologia. No índice americano S&P 500, 36 empresas ligadas à IA já detêm 45% do valor de mercado total. Nos últimos três anos, o índice subiu 76% puxado por esse grupo; sem as 36 companhias, a valorização foi de 32%.
Na vida real das empresas, essas falhas têm levado à suspensão de projetos. A consultoria Gartner estima que 40% das organizações vão rebaixar ou desligar agentes autônomos por falhas de governança em produção, além de alertar que apenas cerca de 130 fornecedores, entre milhares no mercado, vendem agentes verdadeiros — o restante apenas rebatiza robôs de conversa antigos para aproveitar a onda. E essa última constatação merece um texto futuro exclusivo a respeito. Porque é outra enganação comum no mercado.
