Data centers crescem no Brasil, mas a rede elétrica precisa acompanhar

Fileiras de servidores, estrutura típica dos data centers

O Brasil criou incentivos fiscais para atrair data centers, estruturas que armazenam e processam dados usados por serviços digitais e sistemas de inteligência artificial. A medida pode ampliar a infraestrutura tecnológica do país, mas sua expansão depende de um desafio menos visível: conectar grandes instalações à rede elétrica sem comprometer o planejamento e a confiabilidade do sistema.

O que muda com o Redata

Sancionada em 15 de setembro, a Lei 15.504/2026 criou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata). O programa suspende por cinco anos tributos federais sobre equipamentos de tecnologia da informação e comunicação usados na instalação, ampliação ou modernização de data centers. A isenção do imposto de importação se aplica a equipamentos sem equivalente produzido no Brasil.

Em contrapartida, as empresas habilitadas devem destinar pelo menos 10% de sua capacidade de processamento, armazenamento e tratamento de dados ao mercado brasileiro e investir 2% do valor dos equipamentos beneficiados em pesquisa, desenvolvimento e inovação no país. Projetos no Norte, Nordeste e Centro-Oeste têm redução de 20% nessas exigências. A lei também prevê compromissos de eficiência hídrica e uso de energia renovável ou de baixa emissão. Parte dos critérios depende de regulamentação do governo.

A estimativa oficial é de renúncia fiscal de R$ 5,2 bilhões em 2026, R$ 1 bilhão em 2027 e R$ 1,05 bilhão em 2028, segundo o Senado. O benefício, portanto, tem custo fiscal previsto e contrapartidas que precisarão ser acompanhadas.

Pedidos de conexão não são demanda confirmada

O tamanho potencial do setor aparece em pedidos de acesso à rede. Em reportagem publicada em setembro, a Folha informou que, segundo o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), havia mais de 56 gigawatts (GW) em solicitações de conexão de data centers. A cifra equivale a cerca de um quinto da capacidade instalada de geração do país, mas não representa consumo já contratado nem significa que todos os projetos serão construídos. A própria EPE considera que muitos pedidos podem não avançar.

A diferença importa. Um pedido de conexão expressa o interesse de um empreendimento em obter acesso à rede; ainda pode depender de financiamento, licenças, contratos, terreno e capacidade disponível no local. Planejar a expansão elétrica com base em toda a fila, sem verificar a maturidade dos projetos, pode levar a investimentos excessivos. Ignorar a fila, por outro lado, pode deixar a infraestrutura atrasada quando empreendimentos viáveis saírem do papel.

A EPE afirma que data centers ainda representam uma parcela pequena do consumo total de eletricidade, mas crescem rapidamente e podem elevar a carga em regiões específicas. A empresa acompanha os pedidos justamente para dimensionar a expansão da transmissão. Na projeção conjunta mais recente que localizei, EPE, Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) estimaram crescimento médio anual de 4% na carga do Sistema Interligado Nacional entre 2026 e 2030. A previsão considera, entre outros fatores, a expansão dos data centers.

Construir a rede leva mais tempo

Segundo a reportagem da Folha, linhas de transmissão podem levar cerca de cinco anos para entrar em operação, enquanto um grande data center pode ser construído em aproximadamente três. Esse descompasso exige coordenação: a rede precisa estar pronta a tempo, mas grandes obras não devem ser dimensionadas apenas para solicitações que talvez não se concretizem.

O desafio também é regional. A concentração de instalações no Sudeste aumenta a pressão sobre pontos específicos da rede. Levar novos empreendimentos a outras regiões pode aproveitar áreas com energia disponível, mas exige transmissão, fibra óptica e conectividade confiáveis. Ter excedentes de geração renovável no país não garante, por si só, energia acessível e estável no local onde um centro de dados pretende operar.

O Redata procura atrair investimento e ampliar a oferta de serviços digitais no Brasil. O resultado dependerá de como o governo regulamentará as contrapartidas e de como setor elétrico e investidores coordenarão a construção de novas instalações com a expansão da rede. O indicador decisivo não será apenas quantos projetos forem anunciados, mas quantos obtiverem conexão, saírem do papel e entregarem benefícios compatíveis com o incentivo fiscal recebido.

Fontes para saber mais

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