BNDES negocia sociedade em projeto de terras raras em MG

Terras raras: o neodímio é usado para fabricar os poderosos ímãs usados em computadores.

O neodímio é usado para fabricar os poderosos ímãs usados em computadores. Crédito: Getty Images

O BNDES negocia um empréstimo ao projeto Caldeira, de terras raras, no sul de Minas Gerais, e estuda entrar como sócio minoritário por meio da BNDESPar, seu braço de participações. A informação foi publicada pela Folha de S.Paulo em 7 de outubro. O banco disse ao jornal que não comenta operações não aprovadas.

A negociação ocorre uma semana depois de a mineradora australiana Lynas anunciar, em 30 de setembro, a compra da também australiana Meteoric Resources, dona do projeto, por cerca de R$ 3,5 bilhões em ações. E três semanas depois de ser sancionada a lei que criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

O Projeto Caldeira reúne as três pontas do problema brasileiro: um tipo de jazida que o mundo disputa, um comprador estrangeiro que domina a tecnologia que o país não tem e um Estado que, pela primeira vez, dispõe de instrumentos para negociar condições.

O que está em jogo

O projeto ocupa áreas dos municípios de Andradas, Caldas e Poços de Caldas. As empresas o descrevem como o maior recurso conhecido de terras raras em argila iônica fora da China, com cerca de 802 mil toneladas de neodímio e praseodímio e 41 mil toneladas de disprósio e térbio contidas no depósito. O estudo de viabilidade prevê investimento de US$ 498 milhões (R$ 2,6 bilhões), operação por 23 anos e produção média de 12,5 mil toneladas anuais de óxidos de terras raras. Faltam as licenças ambientais para construir e operar.

Segundo a Folha, o banco já negociava com a Meteoric antes da chegada da Lynas, dentro de uma chamada pública lançada com a Finep em janeiro de 2025. O projeto está entre os 10 mais avançados de uma carteira de 56 planos de negócios, que somam R$ 45,8 bilhões. Em 17 de setembro, um dia depois da sanção da lei, diretores do BNDES se reuniram no Rio com representantes das duas empresas.

O ponto em aberto é a separação. A Lynas, que opera minas na Austrália e uma fábrica na Malásia, afirma que vai avaliar fazer essa etapa no Brasil. Não há compromisso firmado. A compra depende do voto dos acionistas da Meteoric, previsto para janeiro de 2027, e de autorizações na Austrália e no Brasil. Aqui, cabe ao Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (Cimce) homologar a mudança de controle.

O governo foi avisado antes do anúncio, em conversas que passaram pela Casa Civil, de acordo com o jornal.

O precedente que mudou a regra

O cuidado da Lynas com Brasília tem origem na venda da Serra Verde, em Goiás, a única produtora comercial de terras raras do país. A americana USA Rare Earth anunciou a compra em abril, por US$ 2,8 bilhões, com apoio financeiro do governo dos Estados Unidos, e a concluiu em 3 de setembro, 13 dias antes da sanção da lei.

A produção da primeira fase dos quatro elementos usados em ímãs está comprometida por 15 anos com um veículo de compra capitalizado pelo governo americano, com preço mínimo garantido. A Agência Nacional de Mineração (ANM) informou à época que as regras então vigentes não exigiam autorização prévia. Segundo a Folha, a falta de comunicação irritou o presidente Lula e reforçou a pressão por mecanismos de controle.

Serra Verde (GO)Caldeira (MG)
SituaçãoEm produção comercialEm desenvolvimento, sem licença de instalação
CompradorUSA Rare Earth (EUA)Lynas (Austrália)
ValorUS$ 2,8 bilhõesR$ 3,5 bilhões, em ações
EstágioConcluído em 3.set.2026Anunciado em 30.set.2026; voto em jan.2027
Produção prevista6,4 mil t/ano de óxidos12,5 mil t/ano de óxidos
Aval do governo brasileiroNão era exigidoHomologação pelo Cimce
Separação no BrasilNãoEm avaliação, sem compromisso

O que a lei prevê

A Lei 15.506, sancionada sem vetos, soma até R$ 7 bilhões em incentivos e garantias:

  • Crédito fiscal. Empresas poderão converter em crédito até 20% do que gastarem com beneficiamento, transformação e recuperação de minerais em produtos descartados. O limite é de R$ 1 bilhão por ano, entre 2030 e 2034.
  • Fundo garantidor. A União está autorizada a aportar até R$ 2 bilhões no Fundo Garantidor da Atividade Mineral, que cobre riscos de projetos prioritários e pode chegar a R$ 5 bilhões com outros cotistas.
  • Conselho. O Cimce, ligado à Presidência, define diretrizes, aprova ou veta projetos e homologa mudanças de controle, diretas ou indiretas, de empresas com direitos sobre esses minerais.

O crédito fiscal, portanto, só começa em 2030. Até lá, o dinheiro disponível vem de outras fontes.

O que existe além da lei

  • BNDES e Finep. A chamada de janeiro de 2025 previa R$ 5 bilhões em crédito, participação acionária e recursos não reembolsáveis para transformação mineral e fabricação de componentes como células de bateria e ímãs.
  • Fundo de minerais estratégicos. Lançado pelo BNDES em 2024, pretende mobilizar cerca de R$ 1 bilhão para pesquisa e implantação de minas por empresas pequenas e médias.
  • Eco Invest. No leilão de 15 de setembro, o Santander venceu a área de beneficiamento de minerais críticos, baterias e mobilidade elétrica, com R$ 1,6 bilhão público e compromisso de captar R$ 4,9 bilhões privados, segundo a Folha. O resultado ainda depende de homologação.
  • Debêntures incentivadas. Projetos de processamento e transformação mineral podem emitir títulos com isenção de Imposto de Renda.
  • Pesquisa. Um laboratório do Senai em Lagoa Santa (MG) testa a separação de terras raras e a fabricação de ímãs em escala piloto.

Por que o mundo procura o Brasil

A China responde por cerca de 60% da mineração e 85% do refino de terras raras, além de cerca de 90% da produção de ímãs, segundo o relatório de 2026 da Agência Internacional de Energia (AIE). Desde 2023, o número de produtos minerais sujeitos a controle de exportação chinês triplicou. A disputa por esses materiais se soma à que já envolve energia e segurança na inteligência artificial.

Em abril de 2025, Pequim restringiu a venda de sete terras raras pesadas, e montadoras reduziram ou pararam a produção. Em outubro daquele ano, anunciou regras mais amplas, que alcançariam produtos fabricados em outros países com material ou tecnologia chinesa. Essas regras foram suspensas por uma trégua com os EUA, prorrogada em setembro até 10 de janeiro de 2027. A AIE calcula que sua aplicação integral poria em risco US$ 6,5 trilhões por ano em produção industrial fora da China.

A trégua não normalizou o mercado. Na Europa, o disprósio e o térbio custam cerca de cinco vezes mais do que dentro da China. Relatório do Council on Foreign Relations publicado em setembro afirma que as exportações chinesas seguem abaixo do nível anterior e que nem os programas dos EUA e do Japão resolverão a dependência antes de 2035.

A AIE aponta ainda um desequilíbrio que interessa diretamente ao Brasil: fora da China, há mais projetos de mina do que de processamento. A capacidade de refino existente e anunciada equivale a dois terços da produção mineral esperada para 2035; a de ímãs, a um terço. Falta, portanto, exatamente a etapa que o país quer atrair.

O Brasil tem, segundo o governo, a segunda maior reserva de terras raras do mundo. Parte dela está em argila iônica, o tipo de depósito que concentra as terras raras pesadas.

Não são só terras raras

A disputa alcança outros minerais. Nesta quinta (8), executivos da Anglo American defendem em Bruxelas a venda de sua operação de níquel em Goiás à MMG, mineradora listada em Hong Kong, por US$ 500 milhões. A Comissão Europeia teme que o comprador desvie o fornecimento hoje destinado a produtores europeus de aço inoxidável. A Anglo afirma, segundo a Reuters, que fechará a unidade se o negócio for barrado. Uma decisão tomada na Europa sobre uma empresa britânica e um comprador ligado à China pode, assim, definir o futuro de uma mina brasileira.

A posição do país varia conforme o mineral, de acordo com a ANM:

MineralO que o Brasil fazOnde depende de fora
NióbioResponde por cerca de 90% da produção mundial e exporta liga metálicaPouco; é o caso em que o valor já é agregado no país
LítioExporta concentrado; produz pouco carbonato e hidróxidoCélulas e materiais de bateria
GrafitaExporta grafita naturalMaterial processado para baterias
NíquelExporta metal e intermediáriosCompostos químicos para baterias
Terras rarasProduz concentradoSeparação, metais e ímãs
PotássioProdução limitadaImporta a maior parte do fertilizante

O Brasil está aproveitando?

Até setembro, não. O país não tinha política para o setor, e seu único ativo em operação foi vendido com a produção comprometida no exterior sem que o Estado pudesse impor condições. A própria ANM afirma que o principal risco para o Brasil não é a falta de recursos geológicos, mas não avançar para o processamento e o refino.

Desde então há instrumentos, com quatro limites.

Escala. Os R$ 7 bilhões da lei equivalem a menos da metade do que a USA Rare Earth pagou por uma única mina brasileira. Em 2025, os países ricos comprometeram cerca de US$ 65 bilhões em dinheiro público para minerais críticos, segundo a AIE.

Calendário. O crédito fiscal começa em 2030. Os projetos em negociação serão decididos antes disso, com crédito do BNDES e garantias.

Tecnologia. O Brasil não tem planta comercial de separação. A China restringe a exportação dessas tecnologias, e poucas empresas fora dela as dominam. A Lynas é uma delas, o que faz do comprador de Caldeira um dos raros capazes de instalar no país a etapa que falta.

Licenciamento. Caldeira ainda não tem licença para construir, e a região de Poços de Caldas registra reação aos impactos socioambientais da mineração.

A negociação do BNDES indica o caminho escolhido: usar crédito e participação acionária para obter a separação no país, em vez de impor a exigência por veto. O resultado se mede por um fato verificável, a decisão da Lynas de construir ou não a planta no Brasil. Se ela sair, o país terá sua primeira unidade comercial. Se Caldeira exportar concentrado, como a Serra Verde, a lei terá mudado pouco.

Perguntas e respostas

O que são minerais críticos e estratégicos?

Críticos são os minerais cujo fornecimento está sob risco, por produção concentrada em poucos países, dependência de importação ou limitação tecnológica. Estratégicos são os essenciais para a economia, a defesa e a tecnologia de um país. As listas mudam de país para país e ao longo do tempo. Para o Brasil, potássio e fosfato são críticos porque a agricultura depende de fertilizante importado.

Mineral crítico é mineral raro?

Não. O cobre é abundante e é considerado crítico porque não tem substituto na eletrificação. O que define a condição é o risco de faltar, e não a escassez na natureza.

O que são terras raras?

São 17 elementos químicos: os 15 lantanídeos, mais escândio e ítrio. Têm propriedades magnéticas, ópticas e elétricas usadas em ímãs de alta potência, presentes em motores de carros elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos, mísseis, radares e drones. Apesar do nome, não são escassas. Difícil é separá-las umas das outras.

Quais são as etapas da cadeia?

São cinco: extração do minério; produção de um concentrado em que os elementos ainda estão misturados; separação química em óxidos de cada elemento; transformação em metais e ligas; fabricação de ímãs. O Brasil faz as duas primeiras. O governo afirma que as etapas seguintes multiplicam em dezenas de vezes o valor do material.

O que é argila iônica?

É um tipo de depósito em que as terras raras estão presas à superfície de partículas de argila, e não dentro de rocha dura. É mais fácil de processar e costuma ter mais terras raras pesadas, como disprósio e térbio. Até recentemente, era explorado quase só na China. Serra Verde e Caldeira são desse tipo.

O que a China domina?

Mais o processamento do que a mineração:

MineralMineraçãoRefinoProduto final
Terras rarascerca de 60%cerca de 85%cerca de 90% dos ímãs
Grafita65% a 70%quase 100% da grafita para bateriasmais de 95% do material de ânodo
Lítiocerca de 15%60% a 70%70% a 80% de cátodos e baterias
Cobalto1% a 2%70% a 75%forte presença em cátodos
Níquelpequena35% a 40%grande em materiais de bateria
Fontes: ANM, com base na AIE; dado de refino de terras raras atualizado pelo relatório de 2026 da AIE.

Empresa estrangeira pode minerar no Brasil?

Pode, desde que a atividade seja exercida por empresa constituída no país, ainda que com capital estrangeiro. Os recursos minerais pertencem à União (artigos 20 e 176 da Constituição), e a exploração depende de autorização do Estado.

O que mudou com a nova lei para quem compra uma mineradora?

Antes, a troca de controle de uma empresa com direitos minerários não exigia aval prévio do governo. Agora, quando envolve minerais críticos ou estratégicos, precisa ser homologada pelo Cimce.

Vale a pena restringir a exportação para forçar a industrialização?

A ANM afirma que restrições podem estimular a agregação de valor, mas trazem risco de perda de competitividade e de retaliação comercial, e que o resultado depende de política industrial, pesquisa e formação de pessoal.

O que é mineração urbana?

É a recuperação de metais contidos em produtos descartados, como celulares, computadores e baterias. A lei brasileira inclui a atividade entre as que dão direito a crédito fiscal.

O que é a trégua entre EUA e China?

É o acordo firmado em Busan, na Coreia do Sul, em outubro de 2025. Os EUA reduziram tarifas e a China suspendeu por um ano as restrições mais amplas à exportação de terras raras. Em setembro de 2026, o prazo foi estendido até 10 de janeiro de 2027. Os controles anteriores, de 2023 a abril de 2025, continuam em vigor.

Linha do tempo

  • 2010: China bloqueia a exportação de terras raras ao Japão em disputa territorial.
  • 2023: Pequim inicia controles de exportação sobre gálio e germânio.
  • Jan.2025: BNDES e Finep lançam chamada de R$ 5 bilhões para transformação mineral.
  • Abr.2025: China restringe sete terras raras pesadas; fábricas param nos EUA e na Europa.
  • Out.2025: China anuncia regras mais amplas; trégua de Busan as suspende por um ano.
  • Abr.2026: USA Rare Earth anuncia a compra da Serra Verde.
  • 3.set.2026: Compra da Serra Verde é concluída.
  • 16.set.2026: Lula sanciona a Lei 15.506.
  • 17.set.2026: BNDES, Meteoric e Lynas se reúnem no Rio.
  • Fim de set.2026: Trump e Xi prorrogam a trégua até 10.jan.2027.
  • 30.set.2026: Lynas anuncia a compra da Meteoric.
  • 7.out.2026: Folha revela negociação do BNDES com o projeto Caldeira.
  • Jan.2027: Acionistas da Meteoric votam a venda; termina o prazo da trégua.

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