Anatel quer financiar data centers em leilão do 6 GHz, mas operadoras resistem

Operadoras pediram que a Anatel adie o leilão de 6 GHz para depois de 2030

Foto: Lucas Bolzan/Anatel

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) quer usar parte do valor do próximo leilão de frequências de celular para construir data centers nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. As operadoras, que pagariam a conta, contestaram a proposta na sexta-feira (16), na primeira audiência pública sobre o edital da faixa de 6 GHz, em Brasília.

A discussão ganha outra dimensão com um estudo divulgado neste mês nos Estados Unidos. Em Financing the AI Buildout, publicado pelo National Bureau of Economic Research (NBER), o economista Stijn Van Nieuwerburgh, da Universidade Columbia, calcula quanto custa a infraestrutura da inteligência artificial. A maior parte do dinheiro, mostra o trabalho, vai para equipamentos que envelhecem em poucos anos.

O que a Anatel propõe

A faixa de 6 GHz é um conjunto de frequências reservado para ampliar a capacidade do 5G e, mais tarde, receber o 6G, cujas primeiras redes comerciais são esperadas por volta de 2030. Nos leilões brasileiros, a maior parte do preço das licenças não vai para o Tesouro: vira obrigação de investimento. Segundo a apresentação da Anatel na audiência, até 95% do valor pode ser convertido em compromissos. Até hoje, eles foram antenas em estradas, fibra óptica até cidades do interior e conexão de escolas.

A novidade do edital, relatado pelo conselheiro Alexandre Freire, é incluir infraestrutura de processamento de dados:

  • Núcleos regionais neutros: data centers de porte regional.
  • Nós de borda: instalações menores, mais próximas dos usuários.

Em entrevista ao Teletime, Freire explicou o motivo. Essa infraestrutura se concentra no Sudeste e em pontos do litoral onde chegam cabos submarinos, e os dados de boa parte do país percorrem longas distâncias, com mais demora e custo. A minuta exclui instalações de grande porte para treinar modelos de IA.

Pelo desenho descrito pelo conselheiro:

  • Propriedade: os data centers seriam privados, construídos e operados por empresas escolhidas em concorrência. Uma entidade criada para o compromisso administraria os recursos, sem ser dona dos ativos.
  • Dinheiro do leilão: cobriria só o “déficit de viabilidade”, a parte que falta para o projeto se pagar. Locais com oferta privada suficiente ficariam de fora.
  • Demanda garantida: as operadoras vencedoras teriam de contratar, e pagar, pelo menos 30% da capacidade de cada núcleo regional durante cinco anos, aos preços de uma oferta pública. O objetivo é garantir receita enquanto o mercado local se forma.
  • Revisão: se a ocupação ficar abaixo de 40% depois de três anos, o projeto pode ser reduzido, transferido ou vendido. Se der lucro muito acima do previsto, parte do aporte volta.
  • Acesso aberto: os data centers teriam de atender qualquer cliente em condições iguais por pelo menos 15 anos.

Em artigo de setembro, Freire defendeu que a qualidade da conexão passou a depender também de onde os dados são processados e armazenados, além do alcance do sinal.

O que dizem as operadoras

Na audiência, as críticas seguiram três linhas:

  • Base legal. Pela Telefônica Brasil (Vivo), Raphael Andrade de Oliveira argumentou que o Decreto nº 9.612/2018, que define as políticas públicas de telecomunicações, não inclui data centers entre os compromissos possíveis em leilões. Segundo ele, na Europa esse tipo de instalação é financiado por parcerias público-privadas, e não pelo preço do espectro.
  • Prioridade. Pela Claro, Monique Barros afirmou que o setor exige muito capital e tem margens pressionadas pela renda da população. Para a empresa, os recursos deveriam ir para cobertura de celular em estradas e localidades remotas.
  • Concorrência. Pela Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrint), Artur Coimbra alertou para o risco de data centers subsidiados disputarem clientes com provedores regionais que investiram capital próprio.

Vivo, Claro e a Conexis Brasil Digital, que reúne as grandes operadoras, também pediram que o leilão fique para depois de 2030. Alegam que as obrigações do leilão do 5G, de 2021, vão até dezembro de 2029, e que uma venda em 2028 obrigaria o setor a comprar equipamentos antes de o 6G ter padrão comercial. A Huawei defendeu o contrário: os equipamentos para a faixa estariam maduros já em 2028.

A disputa ocorre num país que ainda não completou a geração anterior. Segundo dados da Anatel e da consultoria Teleco reunidos pela Veja:

  • O 5G alcançava 68% da população no primeiro trimestre.
  • Estava presente em 1.737 municípios em agosto, 31% do total.
  • Cobria 1% da área rural.

Na audiência, a Anatel informou que metade das mais de 40 mil localidades do país, como distritos e povoados fora das sedes municipais, não tem sequer 4G.

O que o estudo americano mostra sobre a conta

Van Nieuwerburgh estima que um complexo de data centers para IA com 1 gigawatt (GW), potência próxima à de um reator nuclear de grande porte, custa cerca de US$ 41 bilhões. Num complexo de 200 megawatts, orçado em US$ 8,2 bilhões, a conta se divide assim:

ItemCustoParticipação
Prédio, refrigeração e geradoresUS$ 2,2 bilhões26,8%
Infraestrutura de energiaUS$ 400 milhões4,9%
Equipamentos de computaçãoUS$ 5,6 bilhões68,4%
Fonte: Van Nieuwerburgh, NBER (2026)

O estudo supõe que esses equipamentos durem seis anos e lembra que chips podem ficar obsoletos entre três e seis. Prédios e linhas de energia duram décadas.

Somando os projetos registrados nos EUA, o autor projeta 188,3 GW de nova capacidade até 2032, com investimento de US$ 8,97 trilhões. Isso equivale a 3,22% do PIB americano por ano, mais do que se gastou com ferrovias (2,24% ao ano entre 1870 e 1890), rodovias (1,13%) ou fibra óptica (1,10%).

Para pagar esse investimento com retorno de 10% ao ano, o setor precisaria faturar US$ 3,55 trilhões por ano a partir de 2032, ou 8,8% do PIB projetado. Se os equipamentos durarem três anos em vez de seis, a receita necessária sobe para cerca de US$ 5,7 trilhões.

O dinheiro das próprias empresas já não basta. Os investimentos de Microsoft, Alphabet, Amazon, Meta e Oracle devem passar de US$ 415,8 bilhões em 2025 para US$ 800,5 bilhões em 2026, superando pela primeira vez o caixa gerado por suas operações, de US$ 707,1 bilhões. O tema foi tratado aqui em Financiamento da IA esgota o caixa das empresas e vira risco de crédito.

A saída tem sido levar os projetos para fora do balanço. No campus Hyperion, da Meta, com 2 GW e US$ 30 bilhões:

  • A empresa vendeu 80% do empreendimento à gestora Blue Owl.
  • O projeto captou US$ 27 bilhões em dívida, cerca de 90% do valor.
  • A Meta aluga as instalações em contratos de quatro anos a partir de 2029 e garante um valor mínimo de venda caso desista.

Pelas regras contábeis americanas, esses compromissos futuros ficam fora do balanço. O estudo cita levantamento do Wall Street Journal: as quatro maiores empresas de nuvem somam US$ 2,4 trilhões em obrigações desse tipo, cerca de quatro vezes os US$ 604 bilhões registrados como dívida e aluguéis em curso.

Os núcleos regionais da Anatel são muito menores e não se destinam a treinar IA. Mas o estudo ilumina dois pontos do edital:

  • O peso dos equipamentos. Num data center moderno, a maior parte do custo está no que se desvaloriza rápido, enquanto as obrigações de acesso aberto do edital duram 15 anos. Pelo desenho de Freire, depois do aporte inicial o operador privado assume custos e riscos, inclusive a renovação de equipamentos. O plano de negócios de cada projeto terá de mostrar como essa conta fecha.
  • Quem garante a ocupação. Nos EUA, os projetos só conseguem crédito porque um grande inquilino promete usar o espaço. No edital, esse papel cabe às operadoras, com a contratação mínima de 30%. É aí que está o centro da resistência: elas assumiriam parte do risco de um negócio fora de sua atividade principal.

O que vem agora

A segunda e última audiência pública será na quarta-feira (21 de outubro), às 14h, no escritório da Anatel em São Paulo. O prazo para contribuições escritas à Consulta Pública nº 37 termina na sexta-feira (23). O Conselho Diretor analisa pedidos das operadoras para estendê-lo por 45 dias.

A proposta tem o mérito de tratar a infraestrutura digital como uma cadeia só, do sinal ao processamento, num país em que a expansão de data centers já esbarra na rede elétrica e em que a disputa pela IA envolve energia e segurança. O risco está na calibragem. Se a garantia de ocupação pesar demais sobre as operadoras, ou se os núcleos ficarem ociosos, o dinheiro sai do mesmo lugar que ainda falta preencher: o sinal de celular em estradas, distritos e zonas rurais.

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