A realidade brasileira após a eleição
O Brasil que sai das urnas enfrenta orçamento sem folga, juros altos, crescimento fraco e decisões estratégicas.

Depois do calor do debate público, o Brasil que sai das urnas tem de enfrentar contas públicas sem folga, juros altos e crescimento fraco. A agenda imediata já inclui decisões e encaminhamentos em relação a temas como energia, tecnologia e recursos naturais.
O Brasil precisa investir mais para crescer, mas o Orçamento tem pouco espaço livre e o crédito está caro. Essa contradição atravessa quase todos os temas da agenda econômica do próximo ano.
A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB em agosto, o maior nível desde março de 2021. Pelas projeções do próprio governo enviadas com o Orçamento de 2027, ela deve ficar perto de 90% do PIB em 2029. Essa trajetória ascendente preocupa economistas e agentes de mercado.
Enquanto o debate eleitoral ocupou a agenda, o FMI reduziu suas previsões de crescimento para o Brasil: 2,2% em 2026 e 1,9% em 2027.
Energia, tecnologia e minerais testam a capacidade de decisão
A inteligência artificial expõe um descompasso. O marco legal da tecnologia foi aprovado no Senado e aguarda votação na Câmara. A lei precisa definir responsabilidades e proteger direitos sem inviabilizar pequenas empresas ou o uso produtivo da IA. Enquanto isso, a União Europeia já tem calendário: as exigências para sistemas de alto risco valerão a partir de dezembro de 2027. Empresas brasileiras que vendem para o exterior precisam saber que regras seguirão aqui.
O país avançou mais rápido nos incentivos do que na regulação. O Redata, regime tributário para data centers, foi sancionado em setembro, mas ainda depende de decreto. Em outubro, o primeiro leilão de acesso à rede de transmissão vendeu toda a capacidade ofertada, 228 megawatts, a esses empreendimentos. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), os pedidos de conexão de data centers somavam 26,2 gigawatts no fim de 2025, mais de um quarto da demanda de eletricidade do país.
O Brasil produz cada vez mais energia eólica e solar, mas tem dificuldade em integrar novas fontes à matriz energética. Entre janeiro e agosto, os cortes de geração determinados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) cresceram cerca de 21% e chegaram a 20,9% do que essas usinas poderiam produzir. O Nordeste concentra 83% dos cortes. Em parte dos casos, faltam linhas de transmissão para levar a energia até onde ela é consumida. Em outros, a oferta supera o consumo nas horas de sol forte e demanda baixa, e o sistema não tem como guardar o excedente.
Em outubro, a Aneel aprovou uma regra para distribuir esses cortes entre as usinas. A regra organiza a perda, mas não a reduz. O país desperdiça energia renovável enquanto novos consumidores disputam acesso à rede, o que indica que o limite está na transmissão e no armazenamento, mais do que na geração.
Nas terras raras, o Estado chegou depois. Esses minerais são usados em ímãs, motores elétricos, turbinas e eletrônicos. O Brasil tem uma das maiores reservas do mundo, mas uma única mina em operação comercial, a da Serra Verde, em Minaçu (GO). Em setembro, a americana USA Rare Earth concluiu a compra do grupo por cerca de US$ 2,8 bilhões. A produção da primeira fase está contratada por 15 anos com uma sociedade capitalizada por órgãos do governo dos EUA e investidores privados.
Dias depois, foi sancionada a lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, com incentivos ao processamento no país. A lei submete mudanças de controle de mineradoras ao crivo do governo, mas não trata de negócios já concluídos. Antes da sanção, integrantes do governo estudavam rever o contrato da Serra Verde, inclusive na Justiça. O episódio ilustra o desafio maior, que também aparece no projeto de terras raras negociado pelo BNDES em Minas Gerais: entre extrair o minério e fabricar um ímã há etapas de separação e industrialização que exigem conhecimento, financiamento e tempo. Ter a reserva não garante ficar com o valor que ela gera.
Há ainda uma conta ambiental que começa a ganhar preço. A lei que criou o mercado regulado de carbono, o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), é de dezembro de 2024. Nele, grandes emissores terão limites de emissão e poderão comprar ou vender cotas. O Ministério da Fazenda conduz a regulamentação e pretende concluir a primeira fase até o fim de 2026. A proposta levada a consulta pública prevê que os primeiros setores comecem a medir e relatar suas emissões em 2027. Indústria, mineração e energia terão de incluir esse custo nos planos de investimento. A própria política de minerais críticos cria um certificado para a produção com menor emissão de carbono, sinal de que a exigência ambiental tende a se tornar critério de competitividade.
O que vem pela frente
Algumas decisões têm data. Outras dependem de vontade política:
- 3 e 4 de novembro: o Copom decide se mantém ou reduz a Selic.
- Até dezembro: o Congresso precisa votar o Orçamento de 2027, com o valor final do salário mínimo e o tratamento dos precatórios.
- Até o fim de 2026: o Ministério da Fazenda pretende concluir a primeira fase de regulamentação do mercado de carbono.
- 2027: começa a cobrança da CBS, primeira etapa prática da reforma tributária, e os primeiros setores devem passar a relatar emissões ao SBCE.
- Sem data: votação do marco legal da IA na Câmara, decreto de regulamentação do Redata, soluções para os cortes de energia renovável e posição do governo sobre a venda da mina de terras raras.
O desafio de 2027 é que o país precisa investir justamente quando o orçamento e os juros restringem sua capacidade.
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